quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

2010

Olho pra esses números aí em cima e pra página branca e de repente voltei à carteira da sala de aula de algum dos meus primeiros anos de escola, quando em idade era mais próxima de meu filho que de mim mesma hoje. Mais precisamente à pergunta que a professora nos tinha proposto: o que você estará fazendo no ano 2000?

Do recolhido do vasto dos meus sonhos anteriores, toda a inocência de quem tem um universo pra inventar como futuro. Escritora, médica, mãe, esposa... namorada, astronauta, motorista de um carro qualquer, universitária... Adulta!

E já se passaram dez anos do ano que significava pra mim o futuro. Estou no futuro do meu futuro de criança!, e ele incrivelmente me parece tão presente, tão natural e simples, que chego a me sentir em dívida com aquela que, lápis na boca, olhando pro teto da classe, via tanta magia nos dias vindouros. Por mais que os atuais tenham pinceladas de cada uma das possibilidades que eu me sonhava.

E aí... Olho pro meu filho. Ele dorme, ou ele brinca, ou ele se arrasta feito cobrinha pelo chão da casa. Ele sorri, ele gargalha, e o significado de cada coisa que me tornei é sublinhado na melodia que irrompeu da pausa do som de sua felicidade, ali no fôlego necessário pra   que a próxima gargalhada aconteça.

(É necessário apenas um instante pra dar sentido a toda uma vida.)

E 2010, o futuro do futuro, passou.

Foi o ano em que me tornei mãe. O ano em que comecei a sonhar os sonhos de outro futuro. Através do gesto de olhar, e de amar, e de, mirando o possível do impossível, ir ao mesmo tempo pros próximos tempos e pro meu tempo que já foi, com absoluta gratidão a cada um dos segundos que, do agora, se organizam no caminho que converge ao que sou.

E então posso sorrir pra menina que escrevia do futuro longínquo no caderno.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Crianças

Parece que agora sou um pouco mãe de cada criança que vejo. Adivinho a idade, admiro os olhozinhos perturbados de tanta curiosidade inocente, derreto na baba que cai do sorriso envergonhado. Percebo se tem sono, se está com calor. Acho em mim, no mesmo amor que sou e dou a meu filho (e recebo), o amor possível em todo encontro que meus olhos me regalam com qualquer criança do mundo.

Porque mãe vive de amor infinito. De tanto, não cabe só no filho e se derrama espalhado em cada gesto de quem descobre mundo instante a instante.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Movimento Sanguenozóio

Indignação é palavra pouca pra tamanha revolta. Como?, eu me pergunto desde o cerne do não saber que dá à luz as perguntas mais legítimas, as dúvidas mais inconformes. Como parlamentares podem, eles mesmos, decidir que seus próprios salários têm que ser maiores? Baseados em quê? Se professores têm que fazer greves para reivindicar justíssimos aumentos, e mesmo assim não costumam ser atendidos? Se policiais seguem ganhando suas misérias? Se na saúde há falta de profissionais? Se o salário mínimo não dá pro mínimo?
Como?, me pergunto ainda, em perplexidade sempre maior.

Isso me parece a institucionalização daquelas regalias que antes eram feitas às escondidas. E a certeza de que os parlamentares vêm na população que os elegeu um bando de ignorante desarticulado que, se bobear, semana que vem já esqueceu do salário que, mensalmente, vai cair na conta de cada um deles muito, muito maior.

Não.

Mari, Kah, me junto a vocês nesse Movimento Sanguenozóio da futura ONG Mães em Fúria. Porque blog materno é pra falar dos filhos e também pra não permitir que façam tamanha bizarrice no mundo que queremos pra eles. Ou pelo menos deixar registrado através de todo barulho que só mães revoltadas são capazes de fazer que somos contra e que cada um dos que votaram sim não são exemplos a serem seguidos.



Abaixo-assinado aqui.



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Homem do chão

Eu andava e meu não pensar dizia que o único acontecimento era ter nos braços o peso aconchegante de meu filho. Mas numa das ruas do nosso trajeto ele forçou o pescocinho em direção a algo que já havia ficado pra trás, segurando meu ritmo distraído, e eu descobri, estirado no chão, um homem imundo. Segui andando no contrapeso da força que meu filho fazia para seguir olhando, fiel à sua pura surpresa, mas eu já não era a mesma.

Enquanto meu filho olhava outros transeuntes com a mesma curiosidade, eu resgatava da memória inexistente a imagem daquele homem que eu não tinha visto. Adivinhei a pele grossa, as unhas pretas, cada um dos trapos que o cobriam. Adivinhei o cheiro. E me surpreendi com a facilidade que havia passado ao largo daquele vulto amontoado na calçada, e com a minha própria surpresa diante da curiosidade inusitada de meu filho. Inusitada?

A limpidez de seu olhar que tudo apreende não podia incluir o significado daquele homem do chão. Talvez o mero olhar tenha parecido uma demora extra na figura tacitamente proibida, me levando então a especulações possivelmente absurdas de que meu filho tenha realmente considerado o que viu do alto do meu colo e de seus 8 meses algo deslocado, equivocado. Ou talvez ele já seja tocado por qualquer humanidade, e somente alguém assim e cuja única compreensão esteja ainda na própria visão pode verdadeiramente dar o status de absurdo ao absurdo. E ali o manter.

Não sei.

Segui andando com meu filho no colo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Aventuras de Benja e Lula - EDITADO!

video
...engatinhando!!!


Pra quem não acompanhou, Lula é o tucano roxo na mãozinha do Benja, de onde dificilmente sai.

E essa movimentação toda começou ONTEM!


* Participação especial do cachorrinho insistente do clube do brinquedo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A primeira paixão

Quando nos demos conta, já havia se configurado a paixão. Um tucano de pano. Que nos apressamos em chamar de Lula. Pequenininho. Roxo, com o bico em arco-íris, crista vermelha, rabo colorido. Rabo? Tucanos têm rabo? O Lula tem.

Benjamín passa o dia todo agarrado ao tucano. O dia todo. Às vezes tem dificuldade em fazer outras coisas por estar sempre com uma das mãozinhas ocupadas. Seu companheirinho Lula está lá nas tentativas de engatinhar, na hora de comer, nos passeios. Uma hora agarrado pelas patinhas, outra pelo bico, às vezes pelo rabo colorido. Já entrou no banho algumas vezes. E quando se molha, fica secando enquanto Benjamín dorme.

E Lula estava ali, secando em cima da mesa, solitário. Seu olhar parecia até triste de saudades. Eu olhava praquela pequena coisa colorida adivinhando a mãozinha vazia de meu filho, e meu coração apertava até ficar do tamanho de Lula. Me descobri, aí, também apaixonada. Muito admirada da beleza que meu filho emprestara ao bicho de pano por tê-lo escolhido.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

As melhores coisas do mundo


Quando o filme começou, encontrei pronta minha pior e mais fácil armadilha: as críticas estavam já engatilhadas e prontas pra serem atiradas no que parecia se compor como um filme adolescente, no sentido mais pejorativo do termo. Mas o que pra um olhar viciado pudesse parecer banal foi se mostrando estratégia: o simples tinha um contexto, e era só o início da história. Uma história adolescente, no sentido mais belo do termo.

Quando me dei conta, estava já enredada na trama das minhas próprias críticas, embolada nas confusões da minha própria adolescência, pega pelo que parecia fácil e se revelava isca pra minha mais recôndita juventude. Que era quem, deliciada, assistia agora ao filme.

E a delícia do jovem enredo me dava as mãos ao me apresentar toda a complexidade do tempo em que precisamos, afinal, começar a nos reconhecer, e em que se anuncia, primeiro como duríssima carga, o primeiro lampejo de que cada um se deve como único a si mesmo e ao mundo. Assim, ressoava no debater-se de Mano aquele que eu considerava, equivocada, resolvido em mim. Porque é só através daquela mesma angústia, agora atualizada, que eu podia me perguntar se as minhas escolhas haviam dado à adolescente que fui as devidas reverências, e se aquele lampejo havia se feito chamado para que, caso sim, eu o pudesse atender.

Na atualização daquela angústia se atualizava também, mas vinda de outro tempo, a angústia adolescente de meu filho; frente a frente, ambas se acompanhavam e assim se transmutavam de angústia em beleza. Uma beleza que dói porque se sabe temporal; epifânica, suspendia o mundo deixando à luz somente gestos adolescentes de ambos os lados de um espelho: refletidos, meu 15 anos se miravam nos 15 anos de Benjamín, gestando-se do outro lado, numa dança ao som de Something que saía do próprio espelho. Um espelho chamado Laís Bodanzky.

Na lista das melhores coisas do mundo está assistir As melhores coisas do mundo na noite de um domingo de dezembro, embalada pelo silêncio de um bebê que dorme no quarto ao lado enquanto preparamos seu futuro, ele em sonho, eu em sonho e lembrança, nós em sonho, lembrança e amor.


Imagem daqui.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Agradecimento (ou das delícias de se ter um blog)

Flávia,

Um dia você me disse assim num comentário:

“pode ter certeza que o leite e prosa, daqui um tempo, te traerá lembranças maravilhosas, é uma delícia reler sobre as tantas formas desse "tanto amar". prometo!”

Promessa cumprida. A começar pelo seu presente de aniversário ao Astronauta, que incluiu da maneira mais bela quem quisesse se achegar em desejo, e que eu vi um monte de vezes e mostrei pra quem passasse por aqui, me emocionando em cada uma delas. Obrigada, obrigada, obrigada por aquele calorzinho que a gente sente quando vê uma coisa tão bonita que faz tudo se encaixar, e sem conseguir conter, deixa escapar juntos sorriso e lágrima.

Daí, agradeço a existência deste mesmo leite e prosa, que tem sido ponte pra um monte de cantos do mundo e inclusive pra cá dentro. Sim, Flávia, o tempo da escrita proporciona lembranças maravilhosas e às vezes chega mesmo a ser a primeira manifestação de que algo se recordará.

E como canto que se canta junto, o escrever desse incrível montão de mães se une em coro, dando, com a voz de uma, mais dizer à voz de cada outra. Sem falar nas mães que a blogosfera aproximou tanto que até parecem amigas de outros tempos... ou no amparo sutil que me acolheu ontem durante a primeira grande febre do Benjamín, quando palavras me chegavam pássaras vindas das mães que também já arderam suas mãos na testa do filho. Ou ainda na voz que se faz minha enquanto inauguro a lembrança, transformando-a no dizer que em seguida se despede dizendo: até mais, Natalia, até o futuro, quando eu, saudosa, vier me visitar, ou quando Benjamín se voltar pra cá à procura de seus primeiros dias...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O não e o não e o amigo secreto

O não e o não

Porque dentro de três letras tão corriqueiras, cabe o infinito. Não: o infinito cabe fora delas; dentro fica o que, feito muro, o não limita. E muro pode ser pra impedir, pra cercar, proteger; separar desconhecido do conhecido; pra contornar, delimitar. Às vezes é o muro que define onde a casa começa. A casa começa no não.

E o não se bifurca, possibilidades do impossível: quando o mundo se inicia naquele infinito, o não aparece de dois jeitos.

O primeiro: não, porque o mundo pode te machucar. Não pode colocar o dedo na tomada. Não pode atravessar a rua sem olhar. Não pode pular do trocador. Anunciando a impotência antes que ela se faça dor.

O segundo: não, porque você pode machucar o mundo. Não pode quebrar a coleção de CDs do papai. Não pode rasgar as anotações da mamãe. Não pode arremessar a louça. Anunciando a potência pra que ela se reconheça.

É no não que se começa a poder. É no não que se percebe pela primeira vez a própria força.


(Mais uma vez, Guto, obrigada.)

***

Benjamín agradece em notas musicais o lindo presente do amiguinho secreto Gabriel, do Eu e ele!

Benja e seu novo instrumento musical, com a mais que querida Le.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Paul, Benja; Benja, Paul!


Benjamín,

Há alguns já muitos anos, quando a mamãe era ainda uma menina, ela descobriu um CD na casa do vô Tuta e da vó Clá, onde ela morava. Naquela época, o vô Tuta e a vó Clá viviam numa mesma casa porque ainda não tinham escolhido viver suas vidas cada um do seu jeito, e as pessoas estavam começando a escutar CDs, que são umas rodelas brilhantes que vêm numa capa de plástico e que a gente coloca num aparelho específico pra escutar música. Aqui na sala da nossa casa tem um monte de CDs, mas quando você estiver maior eu não sei se eles ainda vão existir ou se você vai se lembrar deles, mesmo adorando, hoje em dia, morder aquelas coloridas capas de plástico. Mas como a mamãe ia dizendo, ainda menina ela descobriu um CD que foi o primeiro encantamento musical da sua vida. Past Masters volume II, era o nome dele, e a mamãe deitava no sofá ao lado do único toca CDs da casa e ouvia, ouvia, ouvia deliciada, uma vez, outra vez, e outra, até adormecer. Aquelas músicas eram tão perfeitas que a mamãe se surpreendeu quando descobriu que havia outros discos dos mesmos caras, e tão incríveis quanto. Os discos vieram antes dos CDs, Benja, e quando você for maior, esses sim você só deve encontrar em museu. Mas escutando disco, ou CD ou até arquivo a mamãe se surpreendeu com eles ainda um monte de vezes ao longo das suas épocas, e continuou surpresa quando percebeu que eles tinham mesmo músicas pra todo tipo de momento da vida de uma pessoa, como uma bíblia musical espalhada no tempo através de acordes musicais, ritmo e palavras. Bíblia, Benja, no sentido de algo que contém significados muito importantes e que podem eternamente se revelar, esconder e renovar (como aquele livro que a mamãe abraçou ao acabar de ler chamado Grande Sertão: Veredas). Então a juventude toda da mamãe foi marcada por diferentes músicas daqueles quatro caras, e sempre que ela escuta algumas delas, se emociona e às vezes até chora de saudade. Porque a mamãe tem hoje 29 anos, Benja, mas uma nostalgia de quem tivesse 83. E também porque sabe que aquelas músicas foram importantes pra muita gente que veio antes dela, como o vô Tuta, a vó Clá e todos os amigos que eles tinham antes. E sabe que é cada vez mais difícil as coisas durarem, principalmente a ponto de atravessar gerações, e quando isso acontece, existe a chance da coisa ser muito, muito boa.
Hoje a mamãe passou o dia todo muito cansada, você deve ter percebido, mas foi por um motivo que valeu a pena. É que ontem ela dormiu tarde e muito alegre. Ontem, ela teve o privilégio de escutar um daqueles quatro caras tocando e cantando na frente dela (mesmo que pequenininho, lá longe), e ela gritou, cantou, dançou, pulou e se emocionou um montão. E enquanto a mamãe nascia, crescia e ia se emocionando com as músicas daqueles quatro, o tempo passava praquele ali de ontem também, e então ali no palco quem estava era já um senhor. Sir Paul. Pros outros três o tempo também passou; pra dois deles o tempo passou tanto que terminou e eles morreram. Isso acontece com todo mundo um dia, meu Benja, e talvez seja por isso que muita gente tentava filmar ou fotografar aquele senhor cantando ao invés de simplesmente curtir ele ali, porque é muito difícil, filho, aceitar que a vida são só esses instantes que acabam, irrecuperáveis e irreprodutíveis, como que anunciando diariamente a morte futura de cada um. E é nesses instantezinhos que a gente tem a oportunidade de dobrar o tempo e se encontrar com outros destinos que a gente sonhava noutros dias, como na música que sir Paul cantava praquele mar de gente, que cantava e pulava junto, quando a mamãe, também cantando e pulando, voltou pro sofá ao lado do toca CDs onde ela descobriu, anos antes, aquela mesma melodia, e reviu através de um arrepio cada momento que separava o sofá que não existe mais do pulo que ela pulava agora. E a mamãe achou um barato, do lado dela, cantando de cor todas as músicas, uns meninos com pouco mais que a idade dela quando descobriu aquele CD, e imaginou que barato maior ainda pros ainda mais velhos que viam a mamãe, os meninos e toda aquela gente cantando de cor as músicas que trilharam a juventude deles. Como eu disse, Benja, pra uma coisa durar assim e atravessar gerações, modas e tecnologias, alguma coisa de muito especial ela tem. E tinha ainda lá ontem à noite, mesmo a mamãe não conseguindo evitar de pensar que difícil deve ser a vida do Sir Paul, que em nome da juventude de todo aquele mar de gente teve que ficar aprisionado na sua própria. Mas isso não é problema, Benja, porque in the end the love you take is equal to the love you makeE aí a mamãe entende duas coisas: o amor que se recebe é igual, como numa equação, ao que se faz; e o amor que se recebe é, ele mesmo, o que se dá.
Tá vendo, meu Benjamín, meu amor?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Como?

Cortando a unhazinha minúscula do Benjamín – nunca se viu nada tão pequeno no universo, e a relatividade se reafirma com o tamanho comparativamente gigante do cortador – desponta um filete de sangue acompanhado de choro agudo doído. E minha maior surpresa, neste momento, é não encontrar em mim dor física que justifique tal pranto.

Como?

Como?, eu me pergunto a cada choro de dor, a dor dele não dói em mim?

Porque a dor que dói em mim é outra: acontece no peito, em aperto, pela dor que eu sei que ele sente; e pela dor que eu sei que ele sente não ter me escolhido, ali, como quem dói.

Ser outra que não ele.

E ele, desde já, desde antes, quando se iniciou, ter se iniciado como aquele que tem que doer sozinho.

(Será essa a forma inaugural da eterna culpa da mãe?)

Por mais que eu beije, e chore, e abrace, e doa.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A eternidade desdentada

Estávamos os três no parque uma tarde dessas quando a luz que chegava até nós, toda enzebrada das plantas que atravessava, iluminou não só o que acontecia ali, mas também outros tempos.

Era uma tarde fria, e os sorrisos agasalhados do Benjamín, sentadinho no chão, rodeado de árvores, me trouxeram abrupta uma sensação que mesclava conforto e desconforto. O primeiro, por vê-lo ali, perto de nós, todos os três brincando juntos, numa alegria que só poderia mesmo acontecer à tarde. E o segundo, um desconforto almofadado, dor que aconchega: uma saudade de outros tempos. Porque seu sorriso banguela me arremessou numa foto desdentada pendurada há anos no porta-retrato; meu próprio sorriso de bebê era quem sorria o mesmo sorriso do meu filho, tão potente na sua singeleza que abre até os portais do tempo.

Naquele instante, eu não me via apenas mãe de Benjamín; eu me devia aquele momento à criança que fui, cruzando gerações e inventando eternidades. Ele continuava sorrindo, trazendo momento a momento o que fui no feliz que sua boca anunciava.

E, continuando a sorrir, singelamente trazia, também, seu adulto futuro. Trazia no aberto da boca o sorriso de seu filho, meu neto, através do olhar que também o olhará sorrindo, sorrindo. E assim nos encontraríamos todos, os que somos, os que fomos e os que seremos, no repetir-se dum sorriso de criança, capaz de condensar tempos num sempre eterno agora.

Eu chorava sem acordes na tarde fria, sem lágrimas, atônita diante da disposição generosa daquele milagre, e sorria ainda o mesmo sorriso de 29 anos atrás. Que se repetirá quando eu for novamente desdentada, exibindo nas gengivas banguelas todos os sorrisos de uma vida.

***

(Devo a percepção deste milagre ao tempo de agora, fins de ano, que sempre me põem num molhado de viver, e a outro adorável intruso que, anunciado ali, se trouxe também pra cá.)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Cada coisa em seu (novo) lugar

Roupa do Benjamín no chão, no exato lugar onde caiu ao despencar do trocador;
Ralf (panterinha azul) atrás do berço, no exato lugar onde pousou após arremesso benjaminiano;
Almofadas espalhadas pelo chão da sala, ad eternum;
Espremedor de fruta em cima da pia, forever;
Leite e seus derivados digestivos salpicados pelo chão em geral;
Celular dentro da bolsa do Benjamín, dentro do quarto dele, com ele dormindo (que ninguém resolva telefonar nas próximas horas);
Fraldinhas, brinquedinhos, casaquinhos, inhosinhos escondidos em cada fresta possível do quarto de mamãe e papai;
Letras coloridas aleatoriamente localizadas no recinto em cuja porta se anuncia: B-N-J-A-N;
Papinha dentro do nariz do lindo rebento.

E o caos, mamãe, está só começando.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Ela

Entrando no carro, se flagrou passeando com o pensamento em obscenidades. Primeiro assustada e um pouco envergonhada, depois até com boas vindas a visitante agora tão raro. O desejo. Obscenidades? Não, isso seria muito. Talvez, o desejo de desejar.

Ia a uma festa. Não se recorda de quando fora à última. Agora, seu filho dorme, e sua mãe ficou com a tarefa de cuidá-lo.

Cada gesto do vestir-se já se ensaiava em significados. A roupa que não serve, a roupa que usou naquela remota vez, o cabelo que quer arrumar diferente. Assim? Assim? Não. Ela, que era antes bonita. Que se sentia ferver de vontades, tantas e alheias. E, diante do espelho, testando penteados, recebeu bem leve o calor dos desejos em forma de lembrança. Que passeou, e se apaixonou em vontade. Lembrada, ainda.

Saudades, ela disse. E sentiu, escolhendo que música escutaria no caminho.

No caminho, percorreu com mais nome àquilo que a visitava. Ao som de músicas de antes, pensou em quem poderia estar na festa. Já com nostalgia. Pretendendo interesse que já faltava no impossível de um futuro. E a música: dane-se. Seja o que for. Vontade, vontade de se apaixonar.

Chegando à festa, pessoas conhecidas. Sorrisos necessários que queria sinceros. Não avistava o marido, que estaria lá.

Andou pelos cantos. Pra falar, espremia os dias em busca de assuntos que pudessem interessar. Como você tá?, bem, filho, sono, filho. Você viu meu marido? Tava aqui agora, acabou de sair. De novo. De novo.

A essas alturas, o desejo aquele todo tinha se convertido em um: encontrá-lo na festa. Conversava com o rabicho do olho procurando. Perguntava outra vez. Nossa, mas vocês num se encontraram? Ele tava aqui agorinha!

Até que se trombaram. Num alívio de água matando sede, se abraçaram. Abraço longo, beijado. Como de há tempos.

Passaram a festa deliciosamente juntos.

Ela voltou mais cedo. Na volta, dirigia em silêncio. Sentiu vazia a cama.

Entendia: o apaixonar-se de que estava prestes tinha achado o melhor rumo de todos. O único possível. O marido.



quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Importâncias

Quando ele, em colo alheio, se joga em direção a mim, ou ao me ver estende as mãozinhas pedindo colo, todos os minutos da minha vida se reorganizam num sentido que transforma aquele cada instante no sumo da existência, em chão vivo onde tudo o mais pode agora, enfim, acontecer.

***

Sítio:
Sentar na grama, gargalhar ao ver cavalos pastando pela primeira vez, olhar pro longe, lamber o chão.
Algumas das delícias do feriado...


E pra que mais serviriam os dreads, mesmo...?





sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Um dia sem ele

Pulou da cama. É hoje, pensou com medo. O filho ainda não havia acordado. Postou-se na beirada do berço pra acompanhar seu despertar. Ele o fez como todos os dias, se espreguiçando, abrindo os olhinhos primeiro com dificuldade, depois acompanhado dum sorriso sonolento e feliz. Ele não sabe de nada, ela pensou com dor.

Havia no ar um quê de fim de ano, de vida prestes a se dar férias, mas o que o dia prometia estava longe disso. A não ser pelo avião. O vôo saía na hora do almoço, e ela queria tocar no filho cada instante possível como se pudesse guardar um pouco pra depois.

E a manhã passou como se tampouco soubesse de nada. Rápida e insensível. A avó e a babá chegaram. Ela se arrumou, e foi aí que se deu conta de que estava nervosa também pela apresentação. Conferiu se na bolsa estava tudo o que precisava. Parecia que sim.

Pegou o filho no colo. Beijou, beijou, beijou mais, apertou-o contra o peito. A essas alturas já achava graça que ele continuasse sorrindo mesmo que o rosto da mãe estivesse alagado de lágrimas. Entregou-o para a avó e saiu.

Como ele vai suportar ficar longe de mim?, pensava ainda chorando. Seria apenas um dia, e se consolava com a velocidade de todos os dias. No caminho para o aeroporto, permitiu-se ouvir música. Já não chorava, e não pode deixar de notar, escondida por entre as melodias, despontando nas pausas dos compassos, a culpa por se sentir bem. Ali, olhando a paisagem correr na janela, ao som daquela batida feliz, se encontrava com a nostalgia do que há pouco tempo ainda não era antigo. Viajaria só. Ida e volta no mesmo dia, mas isso a música ignorava.

Aeroporto. Inevitável imaginar o que imaginavam os que a viam. Nunca suspeitariam quem era ou porque estava viajando. Ela mesma tinha dificuldade em fazer coincidir a imaginação de si com a própria vida.

No avião, aproveitou para estudar de novo o que iria apresentar. No relógio, hora do leite do filho. Tentou dormir.

A viagem era rápida. Esperavam por ela no desembarque. Chegou ao local do evento e sentiu o frio das mãos. Faltava pouco. Assistiu à apresentação que antecedia a sua. O suor frio aumentava. Estou despreparada, percebeu. Que raios estou fazendo aqui?, acrescentou.

Pensou no filho. Pensou há quantas horas não se viam. Pensou que o resultado do cálculo significava o recorde de tempo longe um do outro. Pensou que ele tomou leite NAN. E que seu peito formigava de leite descendo. Pensou que vergonha seria se vazasse leite no meio de sua apresentação. Pensou que teria que apresentar muito bem pra ter valido a pena ficar aquele dia longe dele.

Não pensou mais porque chamaram seu nome. Andou até à frente da plateia, pegou o microfone com a mão suada. Apresentou-se. Só não disse mãe de Benjamin, que está em casa tomando leite NAN enquanto meus peitos vazam.

Falou. Falou. Falou.

Terminou.

Despediu-se de algumas pessoas, foi até o saguão onde o carro a esperaria. Foi levada de volta ao aeroporto. Espera interminável. Anoitecia.

O filho estaria tomando banho. Ela já ficava inquieta com os minutos que, agora, pareciam encalhar. Subiu no avião. Não podia dormir.

A viagem de volta demorou séculos. Sentiu enjôo, sentiu pressa, sentiu saudade. Sua expectativa não cabia naquela poltrona. Irritou-se com a conversa do casal ao lado.

Chegou, enfim, em sua cidade. E as demoras que se seguiram e retardavam sua chegada em casa beiravam o insuportável. Ele está dormindo, o marido contou por telefone. Como?, ela se perguntou. Pediu pressa ao taxista.

Entrou em sua casa silenciosa. Beijou o marido, perguntou do dia. Foi tudo bem. Mas ele ficou bem? Ficou. Mesmo? Sim. Mesmo sem leite do peito? Sim. Ela sentiu doer o peito ingurgitado de leite.

E adentrou o quarto do filho. E pegou-o dormindo no colo. E o abraçou. Sentiu seu cheiro. Casa.

Carregou-o até a cadeira onde dava de mamar. E suspirou de alívio quando ele grudou os lábios no seu peito e, com força, começou a sugar.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Silêncio

Gostaria de encontrar palavras que pudessem tocar na dor de uma mãe que perde um filho. Mas elas não existem e nunca existirão. Estas, só remetem às que não há. Tentando dizer, em vão, o único silêncio possível diante do trágico.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sem anos de perdão

Misterioso, o escrever. Sempre. Começa de uma ideia brotada e segue caminhos imprevisíveis, enviesados, tortos. Querendo se chegar ali, de repente as palavras resolvem tomar rumos outros e nos levam pra lá, fluindo num formar-se de linhas como se puxadas de um carretel. Um carretel invisível e incontrolável. Quem nunca viveu o perder um texto e o tentar reescrevê-lo, sendo surpreendido por um resultado completamente diferente daquele que tinha sido escrito instantes antes? Não, as palavras não são nossas. As palavras são delas mesmas. E por isso não podem ser roubadas.

Tenho a impressão, quando escrevo, que são as palavras que me escolhem, e não o contrário. E isso não é uma espera passiva. É um gesto dificílimo de recolhimento. Em me recolhendo, recolho as palavras que se oferecem a mim. E o texto sai, tecido. Como ele quis. Quando ele quis, porque às vezes não sai. Tenho guardados aqui no computador alguns impublicáveis como exemplo. Mas não mostro por serem mesmo impublicáveis.

E aquela ideia brotada onde na maioria das vezes tudo começa, ela tem vários jeitos de brotar. Às vezes vem do nada, às vezes de uma cena. De uma lembrança. Um mistério. Às vezes, de outro texto. E isso não tem nada a ver com plágio. Isso pode se chamar inspiração, ou intertextualidade, ou qualquer outro nome que caiba. E não retira nada do texto que foi fonte, pelo contrário. Acrescenta outros sentidos, partindo daquilo que já estava pronto. Aí, pode até acontecer um prolongamento tal que dê vida nova ao que já estava inerte.

Mas quem copia não está fazendo nada disso. Seria mais ou menos como arrancar uma flor da terra: ela não pode ser replantada num lugar que não a sabe receber. Ela morre sem o que é sua raiz. E raiz, em se tratando das palavras escritas, é o fazer parte do texto, do contexto, é ter existência por ter sentido. É o ter sido recolhida.

Lembrei agora um assalto que sofri. Assalto de verdade, com arma e tudo. Um objeto foi roubado, dentre as coisas que foram roubadas. Ele valia pouco dinheiro, mas tinha outro valor muito grande. Tinha sido um presente meu pro Demis. Eu fiquei imaginando o objeto na vida das mãos que o levaram, e ele não tinha nenhum sentido possível nelas. A pessoa que o tinha agora não podia chegar nem perto do tanto de significado que aquilo tinha pra gente. Um desperdício do objeto.

Assim acontece com textos roubados. Roubados, e não apropriados, tornados próprios. São coisas muito diferentes. O texto roubado morre no novo lugar, não encaixa, não enraíza. O texto (ou ideia) apropriado ganha outras ramificações, vive noutras paragens, se multiplica pelos olhos que o colheram. Na história da literatura houve muitos textos apropriados. Aliás, a literatura é a história da conversa entre muitos textos. E quando essa conversa acontece, ela pode vir escondida por trás das palavras. Não precisa citar nem nada, isso até tiraria a graça de uma reverência silenciosa que não se mostraria a um leitor menos atento.

No caso das escritas internáuticas, a coisa é um pouco diferente. Porque o leitor dificilmente tem como saber do outro lado da conversa, já que aqui se escreve pequeno, e aos milhões. E reverência sem considerar o que é reverenciado se aproxima da inveja.

O jeito internético de se manter na reverência é dizer de onde veio. Exatamente como o intérprete de uma música diz quem a fez, para então poder interpretar como quem voa. Vide Elis Regina, que não roubou nada de ninguém e deu a muita música vida que nem os autores imaginavam pudesse sair do que eles tinham feito. Tivesse ela roubado, não teria tido chão de onde tomar impulso para o voo.

Dizer de onde veio, além de preservar o que é possível da conversa que dá vida aos textos, é uma maneira de trazer junto a história. Começando pela história de quem está escrevendo, que conta ter passado por ali onde bebeu da água que derrama agora em voz própria. E passando pela história do que foi trazido nessa visita – história-raiz, que, contextualizando, deixa que o texto enxertado viva.

Ladrões de palavras. As palavras, quando palavras, se roubadas desintegram. Vocês se desfazem junto delas. E ficam com as mãos cheias de impossibilidade: de dar sua voz ao mundo; de colher junto; ou de silenciar.

Ladrão que rouba palavra rouba o impossível. As palavras não se roubam. Elas se dão. E por isso ladrão que rouba palavra fica sem anos de perdão.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros... e meus filhos!

Eu quero uma casa no campo. Em que caibam Demis, Benja, eu e nossos sonhos a três (porque o adeus aos sonhos se despede é dos sonhos solitários). Que receba todos os amigos com o vagar de uma tarde infinita. Que acolha conversas, silêncios e os olhares abertos. Onde os filmes e livros possam ser vistos e revistos e revistos até fazerem sentido. Onde a música seja às vezes quem escuta e às vezes quem fala. Onde a varanda seja o campo, ou o mar, ou a calçada. Onde o olhar possa demorar. Onde o crescer dos cabelos e das unhas não sejam tanta surpresa, como se eu pudesse assistir ao que não se deixa ver.
Amém.

***

Casa no campo, na voz da Elis, autoria de Zé Rodrix, inspirou a reza. Bom dizer de onde vêm as coisas, já que estamos prestes a viver um dia de blogagem coletiva pra que as idéias e vozes não sejam roubadas. Dia 25. Pra saber mais, aqui e aqui.

***

Sabe o que eu estranho? Que os blogs tenham uma lógica do fim pro começo. As pessoas vêm, lêem o último post, às vezes passeiam. Mas o que foi escrito antes corre o risco de ficar perdido, se não houver link ou boa vontade (já me peguei até querendo escrever um post pro anterior “ir embora”). Por isso os arquivos vão dos mais recentes pros mais antigos. O contrário de um livro.

Isso sou eu me havendo com essa coisa de blog. Um dia pode ser que eu me acostume. Ou entenda.

domingo, 17 de outubro de 2010

De sonhos, árvores e limites

Ser jovem significa poder ser qualquer coisa que caiba dentro de continuar sendo si mesmo. Ser o ponto de onde divergem infinitos caminhos e ter o pé apontado pra qualquer direção. Poder sonhar ser isso, aquilo outro, apoiando o queixo na mesma janela diária, de onde o mundo acena sempre como convite. E a recusa, por não se saber definitiva, nem tem gosto de recusa. Assim, eu me sonhava, nem tanto tempo atrás, escritora, aventureira, desbravadora, garçonete, andarilha, editora, professora. Morando na praia, na montanha, num navio, num país de língua azul, numa casinha ao som de cachoeira. E tantas outras intimidades.

Eu não tinha percebido antes, talvez por isso o momento tenha se feito de assombro tão violento. E eu não podia supor que a descoberta se daria justamente ali, olhando as fotos de uma amiga na internet. Uma amiga que está trabalhando no Quênia. A cada foto, admiração e dor. Dor?, eu me surpreendia. E a resposta da dor era crescer até sufocar. Um tipo de dor até então desconhecido, que de início eu tentei ignorar, não tendo achado onde enfiar tamanho absurdo. Mas quanto mais eu abafava, mais sem ar ficava. Até que, assustada com meu próprio desespero, saí da frente do computador e fui conversar com minhas lágrimas. Perguntar a elas, no sozinho de um quarto escuro, de onde vinham, pra quê molhavam meu rosto, o que pretendiam.

Elas não me responderam.

E Benjamín dormia no quarto ao lado.

Mas o seco daquelas lágrimas que secaram de silêncio era rastro. Que segui pra conseguir dizer: eu não posso mais fazer o que eu quiser.

Não.

Eu não posso mais ser qualquer coisa que eu sonhe ser. Não posso morar no Quênia, não posso andar sem rumo. Não posso sair pra não voltar, não posso não ter dinheiro. Não posso me inventar de avessos e nem rodar o mundo sem destino nem porquê.

Não posso mais ser sozinha.

Ser mãe abre, mas limita. E isso era a dor. Que foi embora, porque dor dói mesmo é quando ainda não tem nome.

Ter um filho define. Contorna. Por isso minhas companheiras inquietações que transbordavam fizeram malas e partiram. Me deixaram serena com o que se fez minha família.

Ser mãe é um mergulho maravilhoso no íntimo que os dias presenteiam. É o mágico no comum. O milagre: simples.

Mas há que se despedir de alguns sonhos como possíveis. E se despedir de qualquer sonho é também triste, porque traz em forma de adeus tudo o que nunca foi. Mesmo que o caminho para onde os pés agora apontem seja belo, e acolhedor, e desafiador. E preencha de puro milagre os vazios que antes podiam se imaginar árvores.

Árvores: porque se ramificam em impossíveis gestos. E porque dão frutos que são bons é quando amadurecem. E fazem convergir o jovem dos ramos em doçura e em destino.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O convite de casamento

Depois de achar aqui que não poderia escrever como eu e Demis nos conhecemos, percebi que de alguma forma já tinha escrito. Nosso convite de casamento foi um cordel com nossa história (bom, pelo menos uma versão!), impresso em forma de livrinho mesmo, em papel colorido, com ilustrações e tudo.

Não poderia ter sido outro.

Cada “capítulo” ia em uma página, com uma ilustração (feita pela Mari Simas, arquiteta mais querida do Brasil e idealizadora do proprio cordel) na página do lado.

Olha o texto dele aí, ó:

Cordel-convite: A afortunada historia da brasileira e do cubano e como isso deu em casamento

ILHA
Vou lhes contar uma história
Que é difícil acreditá
Da brasileira e o cubano
Que atravessaram o mar

Motivação da travessia
Foi em nome de gostá
Naná inda nem sabia
O que tava pra encontrá

Quando saiu daqui pra ilha
Num vislumbrou o que ia sê
Andando por sem trilha
Deu de cara com Dedê

Três dias suficiente
Pro destino tecê
Com adeus de nunca mais
Voltariam a se vê?

APUNTALADOS
Dedê que num dormia
Vivia a caminhá
No empoeirado novo do dia
E na saudade de Naná

Ela nos dias de vida
Horas de se sempre sabê
Recebia coisa escrevida
E era do tal do Dedê

Antes todinha de dúvida
Resolveu o incerto encará
Dedê recebeu de visita
De novo na ilha Naná

Mais dias de conhecença
Puderam se agraciá
De rio, café e aliança
Que se iriam de novo encontrá

PASSAPORTE
Começaram então um trabalho
Longo de qualquer um cansá
O esforço era bom pois sabiam
Que era pra podê se juntá

Os amigos entraram na história
Pra mor de poder ajudá
Alê ajuntou com Auro
Pros mil papel assiná

Naná ansiava diário
A lonjura se aproximá
Chats evocou os santos
Pra visa de ouro apressá

Até que enfim, reluzente
O carimbo da permissão
Dedê abraçou sua gente
E partiu com dois coração

AVIÃO-PÁSSARO
Era seis, mas cabou sendo dez
Que o tempo quis escrever
Agosto foi o mês da vez
Desse encontro acontecê

Logo no continente
Dedê num pôde escolhê
Urgente corinthiano
E ele assim soube sê

Viagem num foi pra ele
Em nela fez novo crescê
Como convite de sol
Sua cidade enfim conhecê

No começo a idéiaseis mês
Num bastou pra vontade morrê
Dedê e Naná teve mais
É querê pra fazê

JANELA DE CASA
Aprendê a fazê feijão
E a casinha arrumá
Dividindo o mesmo colchão
No mesmo teto morá

Que Nana e Dedê decidiu
O vida-a-vida gozá
A saga que se cumpriu
E tende a continuá

De sempre pequeno em pequeno
O grande assim acontece
Amor é contraveneno
Amanhece também anoitece

No encontro de todo dia
Dificultoso aprendê
O junto que desafia
E inda mais qué crescê

CALENDÁRIO-DÚVIDA
E de tempo cismá em passá
Mais de ano correu
Eles num qué chegá
No quando o visto venceu

Em Dedê saudade aperta
Meple, sua gente, família
Sente janela aberta
De sonho a eterna Ilha

Mas o junto daquela Naná
No aconchego de cada uma noite
Convida mais a ficá
Fazê da saudadeponte

Os homens faz um dilema
Precisa papel pra ficá
Num é papel de poema
É o outro, o de casá

CASAMENTO
Mas casório também é poema
Se é feito de celebrá
União dos que sabe tá junto
Sem nem papel precisá

E nessa hora da história
Você virô personagem
É ontem, sempre e agora
Que recebe essa mensagem

Mesmo ausente no dito
É incluído da vida
De Naná e Dedê, no bonito
Que então a você convida

Preste bem atenção
Na página que vem depois
É hora da celebração
Da história daqueles dois!

NATALIA E DEMIS CONVIDAM PARA A CELEBRAÇÃO DE SEU CASAMENTO

Dia 07 de Fevereiro de 2009, às 20 horas, no...

E a cara:




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