quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

2010

Olho pra esses números aí em cima e pra página branca e de repente voltei à carteira da sala de aula de algum dos meus primeiros anos de escola, quando em idade era mais próxima de meu filho que de mim mesma hoje. Mais precisamente à pergunta que a professora nos tinha proposto: o que você estará fazendo no ano 2000?

Do recolhido do vasto dos meus sonhos anteriores, toda a inocência de quem tem um universo pra inventar como futuro. Escritora, médica, mãe, esposa... namorada, astronauta, motorista de um carro qualquer, universitária... Adulta!

E já se passaram dez anos do ano que significava pra mim o futuro. Estou no futuro do meu futuro de criança!, e ele incrivelmente me parece tão presente, tão natural e simples, que chego a me sentir em dívida com aquela que, lápis na boca, olhando pro teto da classe, via tanta magia nos dias vindouros. Por mais que os atuais tenham pinceladas de cada uma das possibilidades que eu me sonhava.

E aí... Olho pro meu filho. Ele dorme, ou ele brinca, ou ele se arrasta feito cobrinha pelo chão da casa. Ele sorri, ele gargalha, e o significado de cada coisa que me tornei é sublinhado na melodia que irrompeu da pausa do som de sua felicidade, ali no fôlego necessário pra   que a próxima gargalhada aconteça.

(É necessário apenas um instante pra dar sentido a toda uma vida.)

E 2010, o futuro do futuro, passou.

Foi o ano em que me tornei mãe. O ano em que comecei a sonhar os sonhos de outro futuro. Através do gesto de olhar, e de amar, e de, mirando o possível do impossível, ir ao mesmo tempo pros próximos tempos e pro meu tempo que já foi, com absoluta gratidão a cada um dos segundos que, do agora, se organizam no caminho que converge ao que sou.

E então posso sorrir pra menina que escrevia do futuro longínquo no caderno.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Crianças

Parece que agora sou um pouco mãe de cada criança que vejo. Adivinho a idade, admiro os olhozinhos perturbados de tanta curiosidade inocente, derreto na baba que cai do sorriso envergonhado. Percebo se tem sono, se está com calor. Acho em mim, no mesmo amor que sou e dou a meu filho (e recebo), o amor possível em todo encontro que meus olhos me regalam com qualquer criança do mundo.

Porque mãe vive de amor infinito. De tanto, não cabe só no filho e se derrama espalhado em cada gesto de quem descobre mundo instante a instante.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Movimento Sanguenozóio

Indignação é palavra pouca pra tamanha revolta. Como?, eu me pergunto desde o cerne do não saber que dá à luz as perguntas mais legítimas, as dúvidas mais inconformes. Como parlamentares podem, eles mesmos, decidir que seus próprios salários têm que ser maiores? Baseados em quê? Se professores têm que fazer greves para reivindicar justíssimos aumentos, e mesmo assim não costumam ser atendidos? Se policiais seguem ganhando suas misérias? Se na saúde há falta de profissionais? Se o salário mínimo não dá pro mínimo?
Como?, me pergunto ainda, em perplexidade sempre maior.

Isso me parece a institucionalização daquelas regalias que antes eram feitas às escondidas. E a certeza de que os parlamentares vêm na população que os elegeu um bando de ignorante desarticulado que, se bobear, semana que vem já esqueceu do salário que, mensalmente, vai cair na conta de cada um deles muito, muito maior.

Não.

Mari, Kah, me junto a vocês nesse Movimento Sanguenozóio da futura ONG Mães em Fúria. Porque blog materno é pra falar dos filhos e também pra não permitir que façam tamanha bizarrice no mundo que queremos pra eles. Ou pelo menos deixar registrado através de todo barulho que só mães revoltadas são capazes de fazer que somos contra e que cada um dos que votaram sim não são exemplos a serem seguidos.



Abaixo-assinado aqui.



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Homem do chão

Eu andava e meu não pensar dizia que o único acontecimento era ter nos braços o peso aconchegante de meu filho. Mas numa das ruas do nosso trajeto ele forçou o pescocinho em direção a algo que já havia ficado pra trás, segurando meu ritmo distraído, e eu descobri, estirado no chão, um homem imundo. Segui andando no contrapeso da força que meu filho fazia para seguir olhando, fiel à sua pura surpresa, mas eu já não era a mesma.

Enquanto meu filho olhava outros transeuntes com a mesma curiosidade, eu resgatava da memória inexistente a imagem daquele homem que eu não tinha visto. Adivinhei a pele grossa, as unhas pretas, cada um dos trapos que o cobriam. Adivinhei o cheiro. E me surpreendi com a facilidade que havia passado ao largo daquele vulto amontoado na calçada, e com a minha própria surpresa diante da curiosidade inusitada de meu filho. Inusitada?

A limpidez de seu olhar que tudo apreende não podia incluir o significado daquele homem do chão. Talvez o mero olhar tenha parecido uma demora extra na figura tacitamente proibida, me levando então a especulações possivelmente absurdas de que meu filho tenha realmente considerado o que viu do alto do meu colo e de seus 8 meses algo deslocado, equivocado. Ou talvez ele já seja tocado por qualquer humanidade, e somente alguém assim e cuja única compreensão esteja ainda na própria visão pode verdadeiramente dar o status de absurdo ao absurdo. E ali o manter.

Não sei.

Segui andando com meu filho no colo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Aventuras de Benja e Lula - EDITADO!

video
...engatinhando!!!


Pra quem não acompanhou, Lula é o tucano roxo na mãozinha do Benja, de onde dificilmente sai.

E essa movimentação toda começou ONTEM!


* Participação especial do cachorrinho insistente do clube do brinquedo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A primeira paixão

Quando nos demos conta, já havia se configurado a paixão. Um tucano de pano. Que nos apressamos em chamar de Lula. Pequenininho. Roxo, com o bico em arco-íris, crista vermelha, rabo colorido. Rabo? Tucanos têm rabo? O Lula tem.

Benjamín passa o dia todo agarrado ao tucano. O dia todo. Às vezes tem dificuldade em fazer outras coisas por estar sempre com uma das mãozinhas ocupadas. Seu companheirinho Lula está lá nas tentativas de engatinhar, na hora de comer, nos passeios. Uma hora agarrado pelas patinhas, outra pelo bico, às vezes pelo rabo colorido. Já entrou no banho algumas vezes. E quando se molha, fica secando enquanto Benjamín dorme.

E Lula estava ali, secando em cima da mesa, solitário. Seu olhar parecia até triste de saudades. Eu olhava praquela pequena coisa colorida adivinhando a mãozinha vazia de meu filho, e meu coração apertava até ficar do tamanho de Lula. Me descobri, aí, também apaixonada. Muito admirada da beleza que meu filho emprestara ao bicho de pano por tê-lo escolhido.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

As melhores coisas do mundo


Quando o filme começou, encontrei pronta minha pior e mais fácil armadilha: as críticas estavam já engatilhadas e prontas pra serem atiradas no que parecia se compor como um filme adolescente, no sentido mais pejorativo do termo. Mas o que pra um olhar viciado pudesse parecer banal foi se mostrando estratégia: o simples tinha um contexto, e era só o início da história. Uma história adolescente, no sentido mais belo do termo.

Quando me dei conta, estava já enredada na trama das minhas próprias críticas, embolada nas confusões da minha própria adolescência, pega pelo que parecia fácil e se revelava isca pra minha mais recôndita juventude. Que era quem, deliciada, assistia agora ao filme.

E a delícia do jovem enredo me dava as mãos ao me apresentar toda a complexidade do tempo em que precisamos, afinal, começar a nos reconhecer, e em que se anuncia, primeiro como duríssima carga, o primeiro lampejo de que cada um se deve como único a si mesmo e ao mundo. Assim, ressoava no debater-se de Mano aquele que eu considerava, equivocada, resolvido em mim. Porque é só através daquela mesma angústia, agora atualizada, que eu podia me perguntar se as minhas escolhas haviam dado à adolescente que fui as devidas reverências, e se aquele lampejo havia se feito chamado para que, caso sim, eu o pudesse atender.

Na atualização daquela angústia se atualizava também, mas vinda de outro tempo, a angústia adolescente de meu filho; frente a frente, ambas se acompanhavam e assim se transmutavam de angústia em beleza. Uma beleza que dói porque se sabe temporal; epifânica, suspendia o mundo deixando à luz somente gestos adolescentes de ambos os lados de um espelho: refletidos, meu 15 anos se miravam nos 15 anos de Benjamín, gestando-se do outro lado, numa dança ao som de Something que saía do próprio espelho. Um espelho chamado Laís Bodanzky.

Na lista das melhores coisas do mundo está assistir As melhores coisas do mundo na noite de um domingo de dezembro, embalada pelo silêncio de um bebê que dorme no quarto ao lado enquanto preparamos seu futuro, ele em sonho, eu em sonho e lembrança, nós em sonho, lembrança e amor.


Imagem daqui.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Agradecimento (ou das delícias de se ter um blog)

Flávia,

Um dia você me disse assim num comentário:

“pode ter certeza que o leite e prosa, daqui um tempo, te traerá lembranças maravilhosas, é uma delícia reler sobre as tantas formas desse "tanto amar". prometo!”

Promessa cumprida. A começar pelo seu presente de aniversário ao Astronauta, que incluiu da maneira mais bela quem quisesse se achegar em desejo, e que eu vi um monte de vezes e mostrei pra quem passasse por aqui, me emocionando em cada uma delas. Obrigada, obrigada, obrigada por aquele calorzinho que a gente sente quando vê uma coisa tão bonita que faz tudo se encaixar, e sem conseguir conter, deixa escapar juntos sorriso e lágrima.

Daí, agradeço a existência deste mesmo leite e prosa, que tem sido ponte pra um monte de cantos do mundo e inclusive pra cá dentro. Sim, Flávia, o tempo da escrita proporciona lembranças maravilhosas e às vezes chega mesmo a ser a primeira manifestação de que algo se recordará.

E como canto que se canta junto, o escrever desse incrível montão de mães se une em coro, dando, com a voz de uma, mais dizer à voz de cada outra. Sem falar nas mães que a blogosfera aproximou tanto que até parecem amigas de outros tempos... ou no amparo sutil que me acolheu ontem durante a primeira grande febre do Benjamín, quando palavras me chegavam pássaras vindas das mães que também já arderam suas mãos na testa do filho. Ou ainda na voz que se faz minha enquanto inauguro a lembrança, transformando-a no dizer que em seguida se despede dizendo: até mais, Natalia, até o futuro, quando eu, saudosa, vier me visitar, ou quando Benjamín se voltar pra cá à procura de seus primeiros dias...
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