Entrando no carro, se flagrou passeando com o pensamento em obscenidades. Primeiro assustada e um pouco envergonhada, depois até com boas vindas a visitante agora tão raro. O desejo. Obscenidades? Não, isso seria muito. Talvez, o desejo de desejar.
Ia a uma festa. Não se recorda de quando fora à última. Agora, seu filho dorme, e sua mãe ficou com a tarefa de cuidá-lo.
Cada gesto do vestir-se já se ensaiava em significados. A roupa que não serve, a roupa que usou naquela remota vez, o cabelo que quer arrumar diferente. Assim? Assim? Não. Ela, que era antes bonita. Que se sentia ferver de vontades, tantas e alheias. E, diante do espelho, testando penteados, recebeu bem leve o calor dos desejos em forma de lembrança. Que passeou, e se apaixonou em vontade. Lembrada, ainda.
Saudades, ela disse. E sentiu, escolhendo que música escutaria no caminho.
No caminho, percorreu com mais nome àquilo que a visitava. Ao som de músicas de antes, pensou em quem poderia estar na festa. Já com nostalgia. Pretendendo interesse que já faltava no impossível de um futuro. E a música: dane-se. Seja o que for. Vontade, vontade de se apaixonar.
Chegando à festa, pessoas conhecidas. Sorrisos necessários que queria sinceros. Não avistava o marido, que estaria lá.
Andou pelos cantos. Pra falar, espremia os dias em busca de assuntos que pudessem interessar. Como você tá?, bem, filho, sono, filho. Você viu meu marido? Tava aqui agora, acabou de sair. De novo. De novo.
A essas alturas, o desejo aquele todo tinha se convertido em um: encontrá-lo na festa. Conversava com o rabicho do olho procurando. Perguntava outra vez. Nossa, mas vocês num se encontraram? Ele tava aqui agorinha!
Até que se trombaram. Num alívio de água matando sede, se abraçaram. Abraço longo, beijado. Como de há tempos.
Passaram a festa deliciosamente juntos.
Ela voltou mais cedo. Na volta, dirigia em silêncio. Sentiu vazia a cama.
Entendia: o apaixonar-se de que estava prestes tinha achado o melhor rumo de todos. O único possível. O marido.