sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Um dia sem ele

Pulou da cama. É hoje, pensou com medo. O filho ainda não havia acordado. Postou-se na beirada do berço pra acompanhar seu despertar. Ele o fez como todos os dias, se espreguiçando, abrindo os olhinhos primeiro com dificuldade, depois acompanhado dum sorriso sonolento e feliz. Ele não sabe de nada, ela pensou com dor.

Havia no ar um quê de fim de ano, de vida prestes a se dar férias, mas o que o dia prometia estava longe disso. A não ser pelo avião. O vôo saía na hora do almoço, e ela queria tocar no filho cada instante possível como se pudesse guardar um pouco pra depois.

E a manhã passou como se tampouco soubesse de nada. Rápida e insensível. A avó e a babá chegaram. Ela se arrumou, e foi aí que se deu conta de que estava nervosa também pela apresentação. Conferiu se na bolsa estava tudo o que precisava. Parecia que sim.

Pegou o filho no colo. Beijou, beijou, beijou mais, apertou-o contra o peito. A essas alturas já achava graça que ele continuasse sorrindo mesmo que o rosto da mãe estivesse alagado de lágrimas. Entregou-o para a avó e saiu.

Como ele vai suportar ficar longe de mim?, pensava ainda chorando. Seria apenas um dia, e se consolava com a velocidade de todos os dias. No caminho para o aeroporto, permitiu-se ouvir música. Já não chorava, e não pode deixar de notar, escondida por entre as melodias, despontando nas pausas dos compassos, a culpa por se sentir bem. Ali, olhando a paisagem correr na janela, ao som daquela batida feliz, se encontrava com a nostalgia do que há pouco tempo ainda não era antigo. Viajaria só. Ida e volta no mesmo dia, mas isso a música ignorava.

Aeroporto. Inevitável imaginar o que imaginavam os que a viam. Nunca suspeitariam quem era ou porque estava viajando. Ela mesma tinha dificuldade em fazer coincidir a imaginação de si com a própria vida.

No avião, aproveitou para estudar de novo o que iria apresentar. No relógio, hora do leite do filho. Tentou dormir.

A viagem era rápida. Esperavam por ela no desembarque. Chegou ao local do evento e sentiu o frio das mãos. Faltava pouco. Assistiu à apresentação que antecedia a sua. O suor frio aumentava. Estou despreparada, percebeu. Que raios estou fazendo aqui?, acrescentou.

Pensou no filho. Pensou há quantas horas não se viam. Pensou que o resultado do cálculo significava o recorde de tempo longe um do outro. Pensou que ele tomou leite NAN. E que seu peito formigava de leite descendo. Pensou que vergonha seria se vazasse leite no meio de sua apresentação. Pensou que teria que apresentar muito bem pra ter valido a pena ficar aquele dia longe dele.

Não pensou mais porque chamaram seu nome. Andou até à frente da plateia, pegou o microfone com a mão suada. Apresentou-se. Só não disse mãe de Benjamin, que está em casa tomando leite NAN enquanto meus peitos vazam.

Falou. Falou. Falou.

Terminou.

Despediu-se de algumas pessoas, foi até o saguão onde o carro a esperaria. Foi levada de volta ao aeroporto. Espera interminável. Anoitecia.

O filho estaria tomando banho. Ela já ficava inquieta com os minutos que, agora, pareciam encalhar. Subiu no avião. Não podia dormir.

A viagem de volta demorou séculos. Sentiu enjôo, sentiu pressa, sentiu saudade. Sua expectativa não cabia naquela poltrona. Irritou-se com a conversa do casal ao lado.

Chegou, enfim, em sua cidade. E as demoras que se seguiram e retardavam sua chegada em casa beiravam o insuportável. Ele está dormindo, o marido contou por telefone. Como?, ela se perguntou. Pediu pressa ao taxista.

Entrou em sua casa silenciosa. Beijou o marido, perguntou do dia. Foi tudo bem. Mas ele ficou bem? Ficou. Mesmo? Sim. Mesmo sem leite do peito? Sim. Ela sentiu doer o peito ingurgitado de leite.

E adentrou o quarto do filho. E pegou-o dormindo no colo. E o abraçou. Sentiu seu cheiro. Casa.

Carregou-o até a cadeira onde dava de mamar. E suspirou de alívio quando ele grudou os lábios no seu peito e, com força, começou a sugar.


22 comentários:

Carol Passuello disse...

Lindo, Natália! Sei bem como é essa situação. Essa semana mesmo foi a primeira vez que dormi longe dos meus.
Bjs

Luciana disse...

Ebaaa!!! Que bom que deu tudo certo pra vocês. Falei com o Demis ontem e ele me contou que o Benja ficou lindo com a roupinha de macaco. Me manda uma foto?
Bjs pra todos!

Ilana disse...

Ai, emocionei...
Como é difícil deixarmos eles, né? Pra mim é terrível até hoje...
Beijos

Daniela Lopez Garcia disse...

Lindo, Natalia... me emocionei...
Também já estou sofrendo só de pensar que daqui a pouco voltarei ao trabalho e terei que deixar MF na Creche...
Acho que na verdade preciso mais dela que ela de mim...
Estranho e maravilhoso...
Parabéns!!
Bjs!!

Fabiana disse...

Oi Natalia, obrigada pela visita e pelo carinho.
Estamos na mesma situação. Preciso parar de adicionar novos links. Não estou dando conta. Mas depois de ler este post e o relato do nascimento do seu filho, ficou impossível não querer te acompanhar.
Suas palavras são lindas e emocionantes!
Beijos

Kah disse...

É um sentimento estranho. Meio bom, meio ruim. Mas a saudade ainda se sobressai, fazer o quê?
Que bom que tudo correu bem!
Beijão!

Patricia disse...

Lindo. Chorei, claro.
Dois anos e tanto depois ainda me sinto assim a cada despedida.
Será que passa?

Anne disse...

Chorei tb... caracas! Quando sai o livro? Eles sempre ficam bem, né? a gente que surta...
bjo

Marina Fiuza disse...

Este post ganhou o prêmio de coisa mais linda do mundo. Muito lindo, muito verdadeiro e muito bem escrito. Maravilhoso mesmo!

Parabéns pela apresentação, by the way. =)

Paloma, a mãe disse...

Lindo, Natália,e tão verdadeiro.
Beijos

(Mamãe) ~Pinel disse...

Não tem NADA melhor que chegar em casa após horas que seja longe do filho, e ele abocanhar com tanta vontade e saudade o nosso seio, feliz por estar de volta, e nós mais felizes e aliviadas ainda! =P

Ainda bem que deu tudo certo!

Beijo!

Mãe Mochileira,filho malinha.. disse...

oIII! me emocionei,sabia??
voltei no tempo e me vi exatamente nessa mesma situação a 5 anos atras.. a saudade,as horas que nao passavam,a vontade de manda ro trabalho se danar e voltar correndo para casa,o peito doendo de leite..a alegria na volta para casa e sentir o cheirinho dele...
;-)
me emocionei mesmo..adorei!
beijos,otimo fim de semana!!
;-)

Ferna disse...

Ai Natália, até eu me emocionei.
Fiquei me imaginando viver tudo isso, consegui inclusive ver a carinha do meu bebê que ainda não existe rsrs.

Torcendo para que a apresentação tenha sido sucesso total (e eu acho que foi!)

beijos

Leticia W. Borges disse...

lindíssimo, nã. lágrimas nos olhos depois de ler.
ia te ligar ou mandar torpedo perguntando como foi a apresentação. Melhor é que da propriamente dita, só o: falou, falou, falou"... rs. Como aquela personagem do Snoopy "bóbóbóbóbábá".
nos falamos no feri. beso.

Mariana - viciados em colo disse...

dizer mais o quê, se todas disseram o que eu queria dizer: lindo, emocionante, poético! coisa que mãe entende...
beijoca

Dani Lopez Garcia disse...

Tem selinho proces lá no nosso bloguim!!
Acho que vc não curte muito essas coisas, pelo que leio de ti, não se preocupe em postar, foi só um carinho de lembrança!!!
Bjs!!

Demis disse...

...contundente, esmagadora, arida... Se preparem que ainda melhora... Vai Nanik!!!

Val disse...

Ainda vivo isso, sei exatamente que sentimento é esse, a volta que demora mais que a ida.Muito mais.
Sera que um dia sentiremos diferente disso? Acho q não...

Carol disse...

Ansioso, mas linnndo...

Sarah disse...

Mais um lindo texto!!
Só fico longe do Bento enquanto ele está na escola, nunca viajei sem ele. Mas me lembro exatamente como foram os primeiros dias de escolinha... exatamente como vc escreveu aqui! Angústia, agonia, saudade... É assim mesmo que todas nós nos sentimos, angustiadas pela distância dos pequenos, mesmo sabendo que estão bem.
beijo!

Flavia disse...

já tinha lido do celular (e me emocionado... tanto!)
por isso não quiz deixar de passar por aqui, pra dizer que eu achei lindo demais!.


bjs

Majori Claro disse...

É com certo cuidado que adentro o teu texto, Natália, ao lembrar que as mesmas delicadezas que envolvem a relação mãe-bebê, envolvem também a relação terapêutica, a qual, segundo alguns, nada mais seria do que a reedição desta temática, porém agora num momento novo, promissor de cura. E ainda mais porque a sua maternidade profissional dá-se, por ora, com a minha mãe de origem, ainda um enigma para mim (teria a cegonha me largado em mãos erradas?). Mas confesso que fiquei feliz de ter ousado quebrar o tabu para conhecê-lo - tão sensível e profundo no conteúdo, tão bem escrito! - e, com ele, viajar nestes caminhos cheios de ternura e dor. Que eu passei com os meus filhos. Que a minha mãe, apesar da distância de nossas mentes, com certeza experimentou, dada a proximidade dos nossos corações. Parabéns! Continue escrevendo! Passarei por aqui quando estiver com sede de leite e prosa. Beijo.

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