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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A greve

O fato

E num nem tão belo desses dias, na véspera de completar seus 9 meses, meu filho resolveu que não queria mamar.
Chorava ao nos aproximarmos do nosso cantinho das mamadas e mais ainda ao ver meu peito, me olhava com cara de desespero, berrava se eu insistia.

Eu

Um lixo.
Só queria chorar.
Sentindo a rejeição na carne, como se tivesse tomado o pior fora da vida.
Perdida, sem saber o que fazer com todos os horários do dia, da vida, organizados todos em torno das saudosas mamadas.
Perplexa: o desmame não era pra ser difícil pra ele? Não era eu quem tomava
tão árdua decisão?
Conjecturas

Ele cresceu, e não quer mais o aconchego do peito.
Como um novo nascimento, que caberia a mim autenticar, abrindo os braços vazios repletos de dor pra que sua voz se fizesse voz justamente através da minha escuta.
Porque os braços se abrem para abraçar, mas também para deixar ir.

(Mas havia algo de errado nisso, e não era só o dolorido da dor.
Havia algo outro.)

Efeitos

Primeiro, urgiu reinventar meu amor. Porque percebi, num susto, que eu via o amamentar como a única coisa que só eu poderia fazer por meu filho. E num disparate completamente lógico que só a maternidade pode proporcionar, era amamentando (eu achava) que eu me fazia mãe.
Então me vi, agudamente, órfã de mim mesma na nossa junteza. E me agarrei a ele como se tivesse que o reconquistar. Inventei novas brincadeiras, inflei cada minuto de uma necessidade extrema de me fazer presente, e eu era como um copo cheio de dor que transbordava no entanto em alegria.

Ignorãças

Num rompante de inconformidade com o que estava acontecendo, fui pela enésima vez consultar o Dr. Google. E com a mudança de uma palavra na busca, apareceu uma página que dizia:

É importante que a mãe não confunda o auto-desmame natural com a chamada “greve de amamentação” do bebê. Esta ocorre principalmente em crianças menores de um ano, é de início súbito e inesperado, a criança parece insatisfeita e em geral é possível identificar uma causa: doença, dentição, diminuição do volume ou sabor do leite, estresse e excesso de mamadeira ou chupeta. Essa condição usualmente não dura mais que 2-4 dias.

E outra, com respeito a possíveis causas da tal da greve:

Evento traumático repentino – o mais comum é mãe gritando quando o bebê morde o peito, o que é algo comum e compreensível de acontecer.

E, iluminada, feliz, esperançosa, olhei pro meu peito machucado das mordidas numa compreensão simples e apaziguadora.
E, disposta, li na Lia o que fazer com as mordidas que eu não queria mais levar. Muito, muito agradecida.

Desfecho

Benjamín está mamando deliciosa e maravilhosamente bem.
Nunca mais me mordeu.
E continuaremos vivendo felizes para sempre, até o próximo percalço.
Ufa.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Movimento Sanguenozóio

Indignação é palavra pouca pra tamanha revolta. Como?, eu me pergunto desde o cerne do não saber que dá à luz as perguntas mais legítimas, as dúvidas mais inconformes. Como parlamentares podem, eles mesmos, decidir que seus próprios salários têm que ser maiores? Baseados em quê? Se professores têm que fazer greves para reivindicar justíssimos aumentos, e mesmo assim não costumam ser atendidos? Se policiais seguem ganhando suas misérias? Se na saúde há falta de profissionais? Se o salário mínimo não dá pro mínimo?
Como?, me pergunto ainda, em perplexidade sempre maior.

Isso me parece a institucionalização daquelas regalias que antes eram feitas às escondidas. E a certeza de que os parlamentares vêm na população que os elegeu um bando de ignorante desarticulado que, se bobear, semana que vem já esqueceu do salário que, mensalmente, vai cair na conta de cada um deles muito, muito maior.

Não.

Mari, Kah, me junto a vocês nesse Movimento Sanguenozóio da futura ONG Mães em Fúria. Porque blog materno é pra falar dos filhos e também pra não permitir que façam tamanha bizarrice no mundo que queremos pra eles. Ou pelo menos deixar registrado através de todo barulho que só mães revoltadas são capazes de fazer que somos contra e que cada um dos que votaram sim não são exemplos a serem seguidos.



Abaixo-assinado aqui.



quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Agradecimento (ou das delícias de se ter um blog)

Flávia,

Um dia você me disse assim num comentário:

“pode ter certeza que o leite e prosa, daqui um tempo, te traerá lembranças maravilhosas, é uma delícia reler sobre as tantas formas desse "tanto amar". prometo!”

Promessa cumprida. A começar pelo seu presente de aniversário ao Astronauta, que incluiu da maneira mais bela quem quisesse se achegar em desejo, e que eu vi um monte de vezes e mostrei pra quem passasse por aqui, me emocionando em cada uma delas. Obrigada, obrigada, obrigada por aquele calorzinho que a gente sente quando vê uma coisa tão bonita que faz tudo se encaixar, e sem conseguir conter, deixa escapar juntos sorriso e lágrima.

Daí, agradeço a existência deste mesmo leite e prosa, que tem sido ponte pra um monte de cantos do mundo e inclusive pra cá dentro. Sim, Flávia, o tempo da escrita proporciona lembranças maravilhosas e às vezes chega mesmo a ser a primeira manifestação de que algo se recordará.

E como canto que se canta junto, o escrever desse incrível montão de mães se une em coro, dando, com a voz de uma, mais dizer à voz de cada outra. Sem falar nas mães que a blogosfera aproximou tanto que até parecem amigas de outros tempos... ou no amparo sutil que me acolheu ontem durante a primeira grande febre do Benjamín, quando palavras me chegavam pássaras vindas das mães que também já arderam suas mãos na testa do filho. Ou ainda na voz que se faz minha enquanto inauguro a lembrança, transformando-a no dizer que em seguida se despede dizendo: até mais, Natalia, até o futuro, quando eu, saudosa, vier me visitar, ou quando Benjamín se voltar pra cá à procura de seus primeiros dias...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Silêncio

Gostaria de encontrar palavras que pudessem tocar na dor de uma mãe que perde um filho. Mas elas não existem e nunca existirão. Estas, só remetem às que não há. Tentando dizer, em vão, o único silêncio possível diante do trágico.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sem anos de perdão

Misterioso, o escrever. Sempre. Começa de uma ideia brotada e segue caminhos imprevisíveis, enviesados, tortos. Querendo se chegar ali, de repente as palavras resolvem tomar rumos outros e nos levam pra lá, fluindo num formar-se de linhas como se puxadas de um carretel. Um carretel invisível e incontrolável. Quem nunca viveu o perder um texto e o tentar reescrevê-lo, sendo surpreendido por um resultado completamente diferente daquele que tinha sido escrito instantes antes? Não, as palavras não são nossas. As palavras são delas mesmas. E por isso não podem ser roubadas.

Tenho a impressão, quando escrevo, que são as palavras que me escolhem, e não o contrário. E isso não é uma espera passiva. É um gesto dificílimo de recolhimento. Em me recolhendo, recolho as palavras que se oferecem a mim. E o texto sai, tecido. Como ele quis. Quando ele quis, porque às vezes não sai. Tenho guardados aqui no computador alguns impublicáveis como exemplo. Mas não mostro por serem mesmo impublicáveis.

E aquela ideia brotada onde na maioria das vezes tudo começa, ela tem vários jeitos de brotar. Às vezes vem do nada, às vezes de uma cena. De uma lembrança. Um mistério. Às vezes, de outro texto. E isso não tem nada a ver com plágio. Isso pode se chamar inspiração, ou intertextualidade, ou qualquer outro nome que caiba. E não retira nada do texto que foi fonte, pelo contrário. Acrescenta outros sentidos, partindo daquilo que já estava pronto. Aí, pode até acontecer um prolongamento tal que dê vida nova ao que já estava inerte.

Mas quem copia não está fazendo nada disso. Seria mais ou menos como arrancar uma flor da terra: ela não pode ser replantada num lugar que não a sabe receber. Ela morre sem o que é sua raiz. E raiz, em se tratando das palavras escritas, é o fazer parte do texto, do contexto, é ter existência por ter sentido. É o ter sido recolhida.

Lembrei agora um assalto que sofri. Assalto de verdade, com arma e tudo. Um objeto foi roubado, dentre as coisas que foram roubadas. Ele valia pouco dinheiro, mas tinha outro valor muito grande. Tinha sido um presente meu pro Demis. Eu fiquei imaginando o objeto na vida das mãos que o levaram, e ele não tinha nenhum sentido possível nelas. A pessoa que o tinha agora não podia chegar nem perto do tanto de significado que aquilo tinha pra gente. Um desperdício do objeto.

Assim acontece com textos roubados. Roubados, e não apropriados, tornados próprios. São coisas muito diferentes. O texto roubado morre no novo lugar, não encaixa, não enraíza. O texto (ou ideia) apropriado ganha outras ramificações, vive noutras paragens, se multiplica pelos olhos que o colheram. Na história da literatura houve muitos textos apropriados. Aliás, a literatura é a história da conversa entre muitos textos. E quando essa conversa acontece, ela pode vir escondida por trás das palavras. Não precisa citar nem nada, isso até tiraria a graça de uma reverência silenciosa que não se mostraria a um leitor menos atento.

No caso das escritas internáuticas, a coisa é um pouco diferente. Porque o leitor dificilmente tem como saber do outro lado da conversa, já que aqui se escreve pequeno, e aos milhões. E reverência sem considerar o que é reverenciado se aproxima da inveja.

O jeito internético de se manter na reverência é dizer de onde veio. Exatamente como o intérprete de uma música diz quem a fez, para então poder interpretar como quem voa. Vide Elis Regina, que não roubou nada de ninguém e deu a muita música vida que nem os autores imaginavam pudesse sair do que eles tinham feito. Tivesse ela roubado, não teria tido chão de onde tomar impulso para o voo.

Dizer de onde veio, além de preservar o que é possível da conversa que dá vida aos textos, é uma maneira de trazer junto a história. Começando pela história de quem está escrevendo, que conta ter passado por ali onde bebeu da água que derrama agora em voz própria. E passando pela história do que foi trazido nessa visita – história-raiz, que, contextualizando, deixa que o texto enxertado viva.

Ladrões de palavras. As palavras, quando palavras, se roubadas desintegram. Vocês se desfazem junto delas. E ficam com as mãos cheias de impossibilidade: de dar sua voz ao mundo; de colher junto; ou de silenciar.

Ladrão que rouba palavra rouba o impossível. As palavras não se roubam. Elas se dão. E por isso ladrão que rouba palavra fica sem anos de perdão.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A incrível esperteza da mãe-natureza

Atenção: as palavras abaixo podem conter, para não-pais, conteúdo escatológico forte.

Um dia desses, enquanto trocava o novo cocô do Benjamín, percebi outra vez a astúcia da natureza.

O cocô dele, além de cheirosinho, era molinho, em volume na maior parte das vezes cabível na fralda e de consistência contornável com algodão molhado. E mesmo com esse cocô fácil, nas primeiras semanas eu conseguia sujar nós dois de cocô e lambuzar toda a roupa limpinha e as perninhas de hipoglos.

Desde que ele começou a comer papinha salgada, o cocô mudou. Agora tem cheiros diversos e esquisitos, sai de montão, é pastoso e pegajoso, muito pegajoso. Se eu molho o algodão pra limpar, espalho mais ainda. E tenho que limpar várias vezes pra tirar toda aquela tonalidade amarelada que fica a bundinha do meu filho. Isso, somado à destreza crescente do rebento, torna a tarefa trivial de trocar a fralda um desafio sempre maior.

E foi espalhando cocô por todo canto que pensei quão inteligente é a natureza por fazer com que os bebês comecem a vida com um cocô nível 1 de dificuldade, que só aumenta de nível conforme aumenta a habilidade dos pais para enfrentá-lo.

E ali, segurando pra cima as perninhas do meu filho, continuei devaneando e lembrando que essa esperteza da natureza eu já tinha vislumbrado no adiantado da gravidez, quando acordava umas quatro ou cinco vezes por noite pra fazer xixi e sabia que aquilo era só um preparo para as madrugadas que estavam por vir.

Ou quando recebia meus exames de sangue todos anêmicos, porque a sábia natureza, agora mais séria, prevê sangramentos no parto e deixa mais diluído o sangue que pode ir embora.sem dizer tchau.

Ou quando alguém pega no colo meu filho e constata em voz alta que ele está pesado, e eu num sorriso mudo sei que a natureza e sua perspicácia foram ajeitando os músculos do meu braço de acordo com o tamanho do meu filho, de modo que ele, pra mim, não pese nunca (por enquanto, mães de mais velhos, eu sei).

Ou lembrando de todo aquele inchaço associado a olheiras e cabelos disformes que me constituía logo depois do nascimento do meu filho, que faziam coincidir a impossibilidade de sair de casa e a necessidade de evitar isso a todo custo, poupando, assim, a vizinhança de cenas deploráveis.

Seria possível continuar enumerando ad infinitum as provas da astúcia da natureza (que é mãe, afinal de contas), mas meu Benjamín já estava com o bumbum limpinho e cheiroso, vestido, e não ficaria parado em cima do trocador pra eu continuar devaneando nem que a vaca tossisse.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Das curvas, das mães

Imagino que já deva ter passado na cabeça de outras mães. E que quem não tem filhos talvez tenha dificuldade de vislumbrar o tamanho da descoberta. Mas num belo dia, daqueles bem difíceis do começo da vida do Benjamin, eu entendi num clic de ficha caindo que a maternidade iguala as pessoas.

Foi assim: o meu despreparo diante do meu filho era enorme. O passar dos dias (das horas, dos instantes) me trouxe em forma de algum tipo de certeza que o despreparo de qualquer pessoa do universo diante do meu filho, Benjamin, seria também enorme. Porque é necessário despreparo para se estar diante do inaugural. É necessário ignorância. É necessário abertura disposta, e portanto vazia. E também a mudez que pode recolher numa escuta um som que se inicia como linguagem.


Qualquer saber, eu entendi, não seria exato. Ser mãe é ser curva. Desde o redondo da barriga e das mamas até o torto e o impossível das certezas. Passando pelo acolher sem pontas que incomodem – o círculo macio do abraço.


E isso independe da mãe, contanto que o seja. Branca, preta, ruiva, amarela. Biológica, adotiva, escolhida. Pobre, rica, milionária; estudante, analfabeta, PhD. Famosa ou gente comum. Nenhuma condição anterior a ser mãe dá ponto de partida que não seja o zero. Nenhuma condição anterior a ser mãe apresenta, antes que elas mesmas se dêem, as madrugadas insones. A insegurança de dar banho. O prazer de alimentar, qualquer que seja a maneira. O quente dum sorriso banguela. As choradeiras mil (do filho e da mãe). O olhar que se vê no olho que vê pela primeira vez.


Iguais Natalias, Marias, Maries, Giseles; Kalilas, Mitikos, Gimbyas, Jeannes...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Influências

Preciso confessar uma coisa. Se o tipo de letra pudesse ser, ao invés de arial ou verdana, “cochichado”, isso que você lê agora seria sussurrado ao pé do ouvido.

Mas precisa ser dito, por uma questão de esclarecimentos.

Sabe quando você lê um livro daqueles muito bons, impossíveis de largar, cujo autor tem todo um estilo próprio admirável, e quando você vai escrever se pega usando frases, construções, neologismos, à la tal escritor?

Então. Isso tá acontecendo comigo. Mas não com o livro que eu to lendo, que por sinal tá borocochô todo esquecido do lado da cama, juntando poeira, desde que comecei esse negócio de blog. Tá acontecendo é com os blogs!

Caramba.

Eu me pego escrevendo “entãos”, “daí quês”, e tentando (obviamente em vão) todo aquele traquejo gostoso da
Mari. Corro atrás da ironia deliciosa e habilíssima da Roberta (e penso depois daqueles posts dela, comé que eu vou conseguir escrever um post de novo, desgramada?). Planejo mudar o blog pra ficar bonitão, bem escrito e todo musical como o da Carol. Me guio pela sensibilidade e beleza dos posts da Mari. Tento a delicadeza carinhosa e tranqüila da Flávia. A versatilidade bem humorada e escrita da Carol... (eu poderia continuar, mas poxa, aí o que sobraria pra dizer que é meu???) Aimeodeos (diria a Jú). E isso que eu to só começando essa vida de blogueira.

Além de sofrer um abalo de identidade próprio da maternidade, tem esse também? Ondé que foi parar meu estilo, se é que eu tinha um? Será que vai ser igual as manchas na cara, a barriguinha flacidinha, coitada, o cabelo liso, o peito que num aponta mais
pra lua não – coisas que fazem as pessoas te olharem com pena e falarem, pra ver se ajuda, que vai passar?

(aproveito o tem confessional pra declarar minha total crise com o cabelo liso. Quero meus cachos de volta! Eu tenho cabelo pixainzinho! Tenho, tenho, tenho! Cadê ele, pô?)

E, gente do céu, como é possível conciliar mãescença, trabalho, esposice, leituras (que eu pretendo retomar um dia) com ter um blog? Existe alguma maneira? Hein? Hein?

Bom, tá dito. E agora me retiro que ainda vou vasculhar algumas gavetas que faltaram pra ver se encontro escondido por lá o tal do meu estilo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Privilégios

Tive o privilégio de ler um cara chamado Jorge Larrosa pouco antes do nascimento do Benjamin. Foi em outra das insônias prévias à chegada dele, umas duas ou três noites antes, que conheci um texto chamado “O enigma da infância ou o que vai do impossível ao verdadeiro”, do livro Pedagogia Profana. Não tinha o intuito de trazer ao blog textos alheios, mas desse não tive como escapar.

Trago, então, esses trechos (com uma dificuldade enorme de selecionar, porque a vontade era colocar o negócio todo, tão assombroso)...


“...quando uma criança nasce, um outro aparece entre nós. E é um outro porque é sempre algo diferente da materialização de um projeto, da satisfação de uma necessidade, do cumprimento de um desejo, do complemento de uma carência ou do reaparecimento de uma perda. É um outro enquanto outro, não a partir daquilo que nós colocamos nela. É um outro porque sempre é outra coisa diferente do que podemos antecipar, porque sempre está além do que sabemos, ou do que queremos ou do que esperamos. (...) uma criança é algo absolutamente novo que dissolve a solidez do nosso mundo e que suspende a certeza que nós temos de nós próprios. Não é o começo de um processo mais ou menos antecipável, mas uma origem absoluta, um verdadeiro início. (...) (É) o instante da absoluta descontinuidade , da possibilidade enigmática de que algo que não sabemos e que não nos pertence inaugure um novo início. Por isso, o nascimento não é um momento que se possa situar numa cronologia, mas aquilo que interrompe toda cronologia.”

“Uma imagem do totalitarismo: o rosto daqueles que, quando olham para uma criança, já sabem, de antemão, o que vêem e o que têm que fazer com ela. A contra-imagem poderia resultar da inversão da direção do olhar: o rosto daqueles que são capazes de sentir sobre si mesmos o olhar enigmático de uma criança, de perceber o que, nesse olhar, existe de inquietante para todas suas certezas e seguranças e, apesar disso, são capazes de permanecer atentos a esse olhar e de se sentirem responsáveis diante de sua ordem: deves abrir, para mim, um espaço no mundo, de forma que eu possa encontrar um lugar e elevar a minha voz!”

Sim.


***


Tive também o privilégio de receber hoje em casa visitas deliciosas. Gostei demais do papo com a Mari, dos sorrisos irresistíveis da Laurinha, das confluências e afluências. Benjamin também se derreteu em sorrisos e babas e bolhinhas de leite e toques nas mãozinhas de sua mais nova amiga.

O Demis chegou, viu a máquina fotográfica ali e perguntou se tínhamos tirado fotos. Ai, que mães desligadas, não? No próximo a gente não esquece.
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