domingo, 17 de outubro de 2010

De sonhos, árvores e limites

Ser jovem significa poder ser qualquer coisa que caiba dentro de continuar sendo si mesmo. Ser o ponto de onde divergem infinitos caminhos e ter o pé apontado pra qualquer direção. Poder sonhar ser isso, aquilo outro, apoiando o queixo na mesma janela diária, de onde o mundo acena sempre como convite. E a recusa, por não se saber definitiva, nem tem gosto de recusa. Assim, eu me sonhava, nem tanto tempo atrás, escritora, aventureira, desbravadora, garçonete, andarilha, editora, professora. Morando na praia, na montanha, num navio, num país de língua azul, numa casinha ao som de cachoeira. E tantas outras intimidades.

Eu não tinha percebido antes, talvez por isso o momento tenha se feito de assombro tão violento. E eu não podia supor que a descoberta se daria justamente ali, olhando as fotos de uma amiga na internet. Uma amiga que está trabalhando no Quênia. A cada foto, admiração e dor. Dor?, eu me surpreendia. E a resposta da dor era crescer até sufocar. Um tipo de dor até então desconhecido, que de início eu tentei ignorar, não tendo achado onde enfiar tamanho absurdo. Mas quanto mais eu abafava, mais sem ar ficava. Até que, assustada com meu próprio desespero, saí da frente do computador e fui conversar com minhas lágrimas. Perguntar a elas, no sozinho de um quarto escuro, de onde vinham, pra quê molhavam meu rosto, o que pretendiam.

Elas não me responderam.

E Benjamín dormia no quarto ao lado.

Mas o seco daquelas lágrimas que secaram de silêncio era rastro. Que segui pra conseguir dizer: eu não posso mais fazer o que eu quiser.

Não.

Eu não posso mais ser qualquer coisa que eu sonhe ser. Não posso morar no Quênia, não posso andar sem rumo. Não posso sair pra não voltar, não posso não ter dinheiro. Não posso me inventar de avessos e nem rodar o mundo sem destino nem porquê.

Não posso mais ser sozinha.

Ser mãe abre, mas limita. E isso era a dor. Que foi embora, porque dor dói mesmo é quando ainda não tem nome.

Ter um filho define. Contorna. Por isso minhas companheiras inquietações que transbordavam fizeram malas e partiram. Me deixaram serena com o que se fez minha família.

Ser mãe é um mergulho maravilhoso no íntimo que os dias presenteiam. É o mágico no comum. O milagre: simples.

Mas há que se despedir de alguns sonhos como possíveis. E se despedir de qualquer sonho é também triste, porque traz em forma de adeus tudo o que nunca foi. Mesmo que o caminho para onde os pés agora apontem seja belo, e acolhedor, e desafiador. E preencha de puro milagre os vazios que antes podiam se imaginar árvores.

Árvores: porque se ramificam em impossíveis gestos. E porque dão frutos que são bons é quando amadurecem. E fazem convergir o jovem dos ramos em doçura e em destino.

20 comentários:

Luciana disse...

Estou aqui pensando nos meus sonhos que há 4 meses tenho certeza serem somente isso... E sonhando o futuro do Bernardo, do Benja e do André, cheio de promessas e esperanças que nós já não podemos mais ter :)

Ferna disse...

Que lindo Natália.
Eu, na minha juventude e nas inúmeras possibilidades de ser e fazer, sonho mesmo é com esse "comum" esse "simples", que é com certeza a maior aventura de todas as aventuras: gerar vida, ser mãe e multiplicar o amor.
Enquanto espero, até me divirto bastante. rsrs

beijos

Carol disse...

Agora se sonha junto, né? Mas no futuro quando Benjamin tiver seus dezoito, vinte anos ele vai ir seguindo os sonhos dele só, aí, você vai voltar aos seu Quênia e outros e outros mais e quando voltar vai ter alguém ali que tb se aventurou e vão compartilhar juntos a doce descoberta!

Nell disse...

Nati querida! Semana passada fomos assistir Comer, Rezar e Amar. Tive esta mesma sensação: a certeza de não mais poder aventurar-me a. Mas posso aventurar-me com. Vivemos um tempo de malas, bolsas e mais bolsas, não mais mochilas solitárias. E que fase maravilhosa esta. Mas guardemos nossas mochilas, pois daqui a um piscar de olhos nossos filhotes é que estarão com elas nas costas. Beijo em vocês.

Paloma, a mãe disse...

Muito bem colocado. Ter um filho define. E, aparentemente, nos faz remoldar nossos sonhos. Mas acho que, à medida em que eles crescem, algumas coisas voltam a ser sonháveis.
E é por tudo isso que eu acho que juventude não combina com ter filhos. É muito bom poder viver e sonhar tudo antes, para que depois a saudade dos sonhos não sonhados não seja destrutiva.
Beijos

Anne disse...

Ah, estava com saudades de seus posts reflexivos! Estava até ficando preocupada imaginando se você tinha nos abandonado!
Vc tem toda razão, e como são lindos seus textos. A moral da história é essa mesma: é ruim... mas é boooom!
estive num casório no sábado e morri de saudade de fritar na pista! Olhei em volta: nenhum ser humanos sóbreo para olhar o filhote... paciência... minha nova balada é regada à água e papinha de chuchu!E é estranho o quanto eu sinto e amo esse momento...
Bjos!

Leticia W. Borges disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leticia W. Borges disse...

Lembro que momentos antes de vc começar a desejar tão fortemente se tornar mãe, vc falava dos excessos de possibilidades, achei incrivel ler que os excessos arrefeceram e se tornaram caminhos embaixo do pé.
Adorei que Benja conheceu o sofá. Espero que marquemos nova visita em breve.
beijos em ti.

Val disse...

É Nat, filho nos dá uma estrutura, uma coluna de sustentação, para que possamos ter esse mesmo efeito na vidinha deles.
Lindo texto, como todos.
E não falei nada demais no meu blog sobre vc, falei a verdade, nada mais que isso.

Quero ver seus textos num livro: acredito que é uma "pegada" diferente, sobre tantos livros sobre a maternidade...

Bjos.

PS: Tentei responder ao post da Luciana (sua cunhada) e não consegui acessar o blog dela.

Marina Fiuza disse...

Muito bom.
Been there, done that.

Demis disse...

Já esta conversa a gente teve... ‘sonho só acaba se você cumpre o se você desiste (e tem a morte!)’ ter um filho - meu filho - nosso Benjamín veio pra me lembrar de SER eu cada vez mais... para viver, para voar, para sonhar... para mostrar a ele o que de GIGANTE tem esse mundo... a diferença que existe e ter que partilhar teus sonhos com outros, conveniar/combinar, e esses nem são tão outros assim...

Flavia disse...

Lindo, tão lindo que doeu em mim também.
Entendi a dor, mas depois deixei de concordar em tudo.
Ainda podemos ser qualquer coisa que queremos ser, sim! Podemos!
Porque agora e nunca mais vamos querer nada que não seja com eles.

Beijo grande


Fla

Anônimo disse...

Nat, li seu texto ontem, ensaiei te escrever mas parei na metade. Hoje, enquanto te (re)lia, conversava com vc e me percebi maneando a cabeça em plena concordância com o início do texto (que preferiria que estivesse no presente) e discordando violentamente sobre a despedida dos sonhos. Sonhos não nos abandonam!!! Sua estrada-árvore se ramificou. Novas possibilidades, novas cores para os sonhos que se realizarão... Acredite!!!!

Na maternidade, renasci... e os sonhos adormecidos voltaram a brotar na alma, brilhar os olhos, chegar às mãos com mais força do que nunca... sim, os sonhos se realizam quando estamos prontas para fazê-los acontecer.

beijo,
Shirley

Elen B. disse...

Eu concordo com a Flávia e o anônimo!
Também senti esta mesma dor, tão pungente e ao mesmo tempo tão sorrateira que eu mesma não entendia o que era ou aonde estava doendo. Até que como você, dei nome a ela, acolhi e compreendi. Realmente, ela melhorou! Eu chamo isso de aceitação.
Mas discordo em termos que abrir mão dos sonhos. Nâo serão como eram antes. Serão diferentes, mas bem possíveis. A isso eu dou o nome de adequação.
Então quando percebi que dentre as minhas inúmeras possibilidades havia um braço chamado adequação, descortinou-se em meus olhos mais um outro sem fim de ramificações neste braço...
Obrigada pela sua visita, me senti lisonjeada porque o seu blog é perfeito! Deveria ter entrado naquela promoção que teve para se escolher um que virasse livro!
bjo!

Sarah disse...

Ótimas colocações. A maternidade nos define e contorna sim, pois mata parte de quem éramos antes para fazer nascer um novo lado. Ser mãe restringe e limita? Sim. Mas ao mesmo tempo renova e liberta.
beijo!

Isadora Rubim disse...

Li teu post ha dias e achei lindo! Ele ficou dando voltas na minha cabeça. Me tranquilizou saber que é natural e que outras mães também sentem essa dor. Em certo momento cheguei a me sentir egoista.
Mesmo achando que estava preparada, sabendo que ia ter que deixar alguns sonhos para tras tive meu momento de luto depois do nascimento da Luisa.

Agora sonho junto... E mal posso esperar o momento de realizar todos esses sonhos, com ela e ele sempre ao meu lado. Porque isso é a felicidade para mim agora.

Gabi disse...

Na, como ta escrevendo cada dia mais bonito, e cada dia mais Na.

Amo muito voce minha irma querida.

Ga

Mariana Hart disse...

Que lindo! =)

Belas palavras, quanta clareza de pensamentos...

Acho que a vida é feita de fases, e na maternidade, substituições. Trocamos uma alegria pela oura, muito mais plena e que nos realiza. A realidade dos filhos.

BjãOooO!=)

Miriam Petlik disse...

lindo de chorar!

Ligia disse...

Olá Natália! Então era isso o que eu senti naquela manhãzinha, mas cadê habilidade pra falar disso? Adorei este canto e seus textos. Parabéns! Um beijo da Ligia, mãe da Cora

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