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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

2010

Olho pra esses números aí em cima e pra página branca e de repente voltei à carteira da sala de aula de algum dos meus primeiros anos de escola, quando em idade era mais próxima de meu filho que de mim mesma hoje. Mais precisamente à pergunta que a professora nos tinha proposto: o que você estará fazendo no ano 2000?

Do recolhido do vasto dos meus sonhos anteriores, toda a inocência de quem tem um universo pra inventar como futuro. Escritora, médica, mãe, esposa... namorada, astronauta, motorista de um carro qualquer, universitária... Adulta!

E já se passaram dez anos do ano que significava pra mim o futuro. Estou no futuro do meu futuro de criança!, e ele incrivelmente me parece tão presente, tão natural e simples, que chego a me sentir em dívida com aquela que, lápis na boca, olhando pro teto da classe, via tanta magia nos dias vindouros. Por mais que os atuais tenham pinceladas de cada uma das possibilidades que eu me sonhava.

E aí... Olho pro meu filho. Ele dorme, ou ele brinca, ou ele se arrasta feito cobrinha pelo chão da casa. Ele sorri, ele gargalha, e o significado de cada coisa que me tornei é sublinhado na melodia que irrompeu da pausa do som de sua felicidade, ali no fôlego necessário pra   que a próxima gargalhada aconteça.

(É necessário apenas um instante pra dar sentido a toda uma vida.)

E 2010, o futuro do futuro, passou.

Foi o ano em que me tornei mãe. O ano em que comecei a sonhar os sonhos de outro futuro. Através do gesto de olhar, e de amar, e de, mirando o possível do impossível, ir ao mesmo tempo pros próximos tempos e pro meu tempo que já foi, com absoluta gratidão a cada um dos segundos que, do agora, se organizam no caminho que converge ao que sou.

E então posso sorrir pra menina que escrevia do futuro longínquo no caderno.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Homem do chão

Eu andava e meu não pensar dizia que o único acontecimento era ter nos braços o peso aconchegante de meu filho. Mas numa das ruas do nosso trajeto ele forçou o pescocinho em direção a algo que já havia ficado pra trás, segurando meu ritmo distraído, e eu descobri, estirado no chão, um homem imundo. Segui andando no contrapeso da força que meu filho fazia para seguir olhando, fiel à sua pura surpresa, mas eu já não era a mesma.

Enquanto meu filho olhava outros transeuntes com a mesma curiosidade, eu resgatava da memória inexistente a imagem daquele homem que eu não tinha visto. Adivinhei a pele grossa, as unhas pretas, cada um dos trapos que o cobriam. Adivinhei o cheiro. E me surpreendi com a facilidade que havia passado ao largo daquele vulto amontoado na calçada, e com a minha própria surpresa diante da curiosidade inusitada de meu filho. Inusitada?

A limpidez de seu olhar que tudo apreende não podia incluir o significado daquele homem do chão. Talvez o mero olhar tenha parecido uma demora extra na figura tacitamente proibida, me levando então a especulações possivelmente absurdas de que meu filho tenha realmente considerado o que viu do alto do meu colo e de seus 8 meses algo deslocado, equivocado. Ou talvez ele já seja tocado por qualquer humanidade, e somente alguém assim e cuja única compreensão esteja ainda na própria visão pode verdadeiramente dar o status de absurdo ao absurdo. E ali o manter.

Não sei.

Segui andando com meu filho no colo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Paul, Benja; Benja, Paul!


Benjamín,

Há alguns já muitos anos, quando a mamãe era ainda uma menina, ela descobriu um CD na casa do vô Tuta e da vó Clá, onde ela morava. Naquela época, o vô Tuta e a vó Clá viviam numa mesma casa porque ainda não tinham escolhido viver suas vidas cada um do seu jeito, e as pessoas estavam começando a escutar CDs, que são umas rodelas brilhantes que vêm numa capa de plástico e que a gente coloca num aparelho específico pra escutar música. Aqui na sala da nossa casa tem um monte de CDs, mas quando você estiver maior eu não sei se eles ainda vão existir ou se você vai se lembrar deles, mesmo adorando, hoje em dia, morder aquelas coloridas capas de plástico. Mas como a mamãe ia dizendo, ainda menina ela descobriu um CD que foi o primeiro encantamento musical da sua vida. Past Masters volume II, era o nome dele, e a mamãe deitava no sofá ao lado do único toca CDs da casa e ouvia, ouvia, ouvia deliciada, uma vez, outra vez, e outra, até adormecer. Aquelas músicas eram tão perfeitas que a mamãe se surpreendeu quando descobriu que havia outros discos dos mesmos caras, e tão incríveis quanto. Os discos vieram antes dos CDs, Benja, e quando você for maior, esses sim você só deve encontrar em museu. Mas escutando disco, ou CD ou até arquivo a mamãe se surpreendeu com eles ainda um monte de vezes ao longo das suas épocas, e continuou surpresa quando percebeu que eles tinham mesmo músicas pra todo tipo de momento da vida de uma pessoa, como uma bíblia musical espalhada no tempo através de acordes musicais, ritmo e palavras. Bíblia, Benja, no sentido de algo que contém significados muito importantes e que podem eternamente se revelar, esconder e renovar (como aquele livro que a mamãe abraçou ao acabar de ler chamado Grande Sertão: Veredas). Então a juventude toda da mamãe foi marcada por diferentes músicas daqueles quatro caras, e sempre que ela escuta algumas delas, se emociona e às vezes até chora de saudade. Porque a mamãe tem hoje 29 anos, Benja, mas uma nostalgia de quem tivesse 83. E também porque sabe que aquelas músicas foram importantes pra muita gente que veio antes dela, como o vô Tuta, a vó Clá e todos os amigos que eles tinham antes. E sabe que é cada vez mais difícil as coisas durarem, principalmente a ponto de atravessar gerações, e quando isso acontece, existe a chance da coisa ser muito, muito boa.
Hoje a mamãe passou o dia todo muito cansada, você deve ter percebido, mas foi por um motivo que valeu a pena. É que ontem ela dormiu tarde e muito alegre. Ontem, ela teve o privilégio de escutar um daqueles quatro caras tocando e cantando na frente dela (mesmo que pequenininho, lá longe), e ela gritou, cantou, dançou, pulou e se emocionou um montão. E enquanto a mamãe nascia, crescia e ia se emocionando com as músicas daqueles quatro, o tempo passava praquele ali de ontem também, e então ali no palco quem estava era já um senhor. Sir Paul. Pros outros três o tempo também passou; pra dois deles o tempo passou tanto que terminou e eles morreram. Isso acontece com todo mundo um dia, meu Benja, e talvez seja por isso que muita gente tentava filmar ou fotografar aquele senhor cantando ao invés de simplesmente curtir ele ali, porque é muito difícil, filho, aceitar que a vida são só esses instantes que acabam, irrecuperáveis e irreprodutíveis, como que anunciando diariamente a morte futura de cada um. E é nesses instantezinhos que a gente tem a oportunidade de dobrar o tempo e se encontrar com outros destinos que a gente sonhava noutros dias, como na música que sir Paul cantava praquele mar de gente, que cantava e pulava junto, quando a mamãe, também cantando e pulando, voltou pro sofá ao lado do toca CDs onde ela descobriu, anos antes, aquela mesma melodia, e reviu através de um arrepio cada momento que separava o sofá que não existe mais do pulo que ela pulava agora. E a mamãe achou um barato, do lado dela, cantando de cor todas as músicas, uns meninos com pouco mais que a idade dela quando descobriu aquele CD, e imaginou que barato maior ainda pros ainda mais velhos que viam a mamãe, os meninos e toda aquela gente cantando de cor as músicas que trilharam a juventude deles. Como eu disse, Benja, pra uma coisa durar assim e atravessar gerações, modas e tecnologias, alguma coisa de muito especial ela tem. E tinha ainda lá ontem à noite, mesmo a mamãe não conseguindo evitar de pensar que difícil deve ser a vida do Sir Paul, que em nome da juventude de todo aquele mar de gente teve que ficar aprisionado na sua própria. Mas isso não é problema, Benja, porque in the end the love you take is equal to the love you make… E aí a mamãe entende duas coisas: o amor que se recebe é igual, como numa equação, ao que se faz; e o amor que se recebe é, ele mesmo, o que se dá.
Tá vendo, meu Benjamín, meu amor?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A eternidade desdentada

Estávamos os três no parque uma tarde dessas quando a luz que chegava até nós, toda enzebrada das plantas que atravessava, iluminou não só o que acontecia ali, mas também outros tempos.

Era uma tarde fria, e os sorrisos agasalhados do Benjamín, sentadinho no chão, rodeado de árvores, me trouxeram abrupta uma sensação que mesclava conforto e desconforto. O primeiro, por vê-lo ali, perto de nós, todos os três brincando juntos, numa alegria que só poderia mesmo acontecer à tarde. E o segundo, um desconforto almofadado, dor que aconchega: uma saudade de outros tempos. Porque seu sorriso banguela me arremessou numa foto desdentada pendurada há anos no porta-retrato; meu próprio sorriso de bebê era quem sorria o mesmo sorriso do meu filho, tão potente na sua singeleza que abre até os portais do tempo.

Naquele instante, eu não me via apenas mãe de Benjamín; eu me devia aquele momento à criança que fui, cruzando gerações e inventando eternidades. Ele continuava sorrindo, trazendo momento a momento o que fui no feliz que sua boca anunciava.

E, continuando a sorrir, singelamente trazia, também, seu adulto futuro. Trazia no aberto da boca o sorriso de seu filho, meu neto, através do olhar que também o olhará sorrindo, sorrindo. E assim nos encontraríamos todos, os que somos, os que fomos e os que seremos, no repetir-se dum sorriso de criança, capaz de condensar tempos num sempre eterno agora.

Eu chorava sem acordes na tarde fria, sem lágrimas, atônita diante da disposição generosa daquele milagre, e sorria ainda o mesmo sorriso de 29 anos atrás. Que se repetirá quando eu for novamente desdentada, exibindo nas gengivas banguelas todos os sorrisos de uma vida.

***

(Devo a percepção deste milagre ao tempo de agora, fins de ano, que sempre me põem num molhado de viver, e a outro adorável intruso que, anunciado ali, se trouxe também pra cá.)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Um dia sem ele

Pulou da cama. É hoje, pensou com medo. O filho ainda não havia acordado. Postou-se na beirada do berço pra acompanhar seu despertar. Ele o fez como todos os dias, se espreguiçando, abrindo os olhinhos primeiro com dificuldade, depois acompanhado dum sorriso sonolento e feliz. Ele não sabe de nada, ela pensou com dor.

Havia no ar um quê de fim de ano, de vida prestes a se dar férias, mas o que o dia prometia estava longe disso. A não ser pelo avião. O vôo saía na hora do almoço, e ela queria tocar no filho cada instante possível como se pudesse guardar um pouco pra depois.

E a manhã passou como se tampouco soubesse de nada. Rápida e insensível. A avó e a babá chegaram. Ela se arrumou, e foi aí que se deu conta de que estava nervosa também pela apresentação. Conferiu se na bolsa estava tudo o que precisava. Parecia que sim.

Pegou o filho no colo. Beijou, beijou, beijou mais, apertou-o contra o peito. A essas alturas já achava graça que ele continuasse sorrindo mesmo que o rosto da mãe estivesse alagado de lágrimas. Entregou-o para a avó e saiu.

Como ele vai suportar ficar longe de mim?, pensava ainda chorando. Seria apenas um dia, e se consolava com a velocidade de todos os dias. No caminho para o aeroporto, permitiu-se ouvir música. Já não chorava, e não pode deixar de notar, escondida por entre as melodias, despontando nas pausas dos compassos, a culpa por se sentir bem. Ali, olhando a paisagem correr na janela, ao som daquela batida feliz, se encontrava com a nostalgia do que há pouco tempo ainda não era antigo. Viajaria só. Ida e volta no mesmo dia, mas isso a música ignorava.

Aeroporto. Inevitável imaginar o que imaginavam os que a viam. Nunca suspeitariam quem era ou porque estava viajando. Ela mesma tinha dificuldade em fazer coincidir a imaginação de si com a própria vida.

No avião, aproveitou para estudar de novo o que iria apresentar. No relógio, hora do leite do filho. Tentou dormir.

A viagem era rápida. Esperavam por ela no desembarque. Chegou ao local do evento e sentiu o frio das mãos. Faltava pouco. Assistiu à apresentação que antecedia a sua. O suor frio aumentava. Estou despreparada, percebeu. Que raios estou fazendo aqui?, acrescentou.

Pensou no filho. Pensou há quantas horas não se viam. Pensou que o resultado do cálculo significava o recorde de tempo longe um do outro. Pensou que ele tomou leite NAN. E que seu peito formigava de leite descendo. Pensou que vergonha seria se vazasse leite no meio de sua apresentação. Pensou que teria que apresentar muito bem pra ter valido a pena ficar aquele dia longe dele.

Não pensou mais porque chamaram seu nome. Andou até à frente da plateia, pegou o microfone com a mão suada. Apresentou-se. Só não disse mãe de Benjamin, que está em casa tomando leite NAN enquanto meus peitos vazam.

Falou. Falou. Falou.

Terminou.

Despediu-se de algumas pessoas, foi até o saguão onde o carro a esperaria. Foi levada de volta ao aeroporto. Espera interminável. Anoitecia.

O filho estaria tomando banho. Ela já ficava inquieta com os minutos que, agora, pareciam encalhar. Subiu no avião. Não podia dormir.

A viagem de volta demorou séculos. Sentiu enjôo, sentiu pressa, sentiu saudade. Sua expectativa não cabia naquela poltrona. Irritou-se com a conversa do casal ao lado.

Chegou, enfim, em sua cidade. E as demoras que se seguiram e retardavam sua chegada em casa beiravam o insuportável. Ele está dormindo, o marido contou por telefone. Como?, ela se perguntou. Pediu pressa ao taxista.

Entrou em sua casa silenciosa. Beijou o marido, perguntou do dia. Foi tudo bem. Mas ele ficou bem? Ficou. Mesmo? Sim. Mesmo sem leite do peito? Sim. Ela sentiu doer o peito ingurgitado de leite.

E adentrou o quarto do filho. E pegou-o dormindo no colo. E o abraçou. Sentiu seu cheiro. Casa.

Carregou-o até a cadeira onde dava de mamar. E suspirou de alívio quando ele grudou os lábios no seu peito e, com força, começou a sugar.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sem anos de perdão

Misterioso, o escrever. Sempre. Começa de uma ideia brotada e segue caminhos imprevisíveis, enviesados, tortos. Querendo se chegar ali, de repente as palavras resolvem tomar rumos outros e nos levam pra lá, fluindo num formar-se de linhas como se puxadas de um carretel. Um carretel invisível e incontrolável. Quem nunca viveu o perder um texto e o tentar reescrevê-lo, sendo surpreendido por um resultado completamente diferente daquele que tinha sido escrito instantes antes? Não, as palavras não são nossas. As palavras são delas mesmas. E por isso não podem ser roubadas.

Tenho a impressão, quando escrevo, que são as palavras que me escolhem, e não o contrário. E isso não é uma espera passiva. É um gesto dificílimo de recolhimento. Em me recolhendo, recolho as palavras que se oferecem a mim. E o texto sai, tecido. Como ele quis. Quando ele quis, porque às vezes não sai. Tenho guardados aqui no computador alguns impublicáveis como exemplo. Mas não mostro por serem mesmo impublicáveis.

E aquela ideia brotada onde na maioria das vezes tudo começa, ela tem vários jeitos de brotar. Às vezes vem do nada, às vezes de uma cena. De uma lembrança. Um mistério. Às vezes, de outro texto. E isso não tem nada a ver com plágio. Isso pode se chamar inspiração, ou intertextualidade, ou qualquer outro nome que caiba. E não retira nada do texto que foi fonte, pelo contrário. Acrescenta outros sentidos, partindo daquilo que já estava pronto. Aí, pode até acontecer um prolongamento tal que dê vida nova ao que já estava inerte.

Mas quem copia não está fazendo nada disso. Seria mais ou menos como arrancar uma flor da terra: ela não pode ser replantada num lugar que não a sabe receber. Ela morre sem o que é sua raiz. E raiz, em se tratando das palavras escritas, é o fazer parte do texto, do contexto, é ter existência por ter sentido. É o ter sido recolhida.

Lembrei agora um assalto que sofri. Assalto de verdade, com arma e tudo. Um objeto foi roubado, dentre as coisas que foram roubadas. Ele valia pouco dinheiro, mas tinha outro valor muito grande. Tinha sido um presente meu pro Demis. Eu fiquei imaginando o objeto na vida das mãos que o levaram, e ele não tinha nenhum sentido possível nelas. A pessoa que o tinha agora não podia chegar nem perto do tanto de significado que aquilo tinha pra gente. Um desperdício do objeto.

Assim acontece com textos roubados. Roubados, e não apropriados, tornados próprios. São coisas muito diferentes. O texto roubado morre no novo lugar, não encaixa, não enraíza. O texto (ou ideia) apropriado ganha outras ramificações, vive noutras paragens, se multiplica pelos olhos que o colheram. Na história da literatura houve muitos textos apropriados. Aliás, a literatura é a história da conversa entre muitos textos. E quando essa conversa acontece, ela pode vir escondida por trás das palavras. Não precisa citar nem nada, isso até tiraria a graça de uma reverência silenciosa que não se mostraria a um leitor menos atento.

No caso das escritas internáuticas, a coisa é um pouco diferente. Porque o leitor dificilmente tem como saber do outro lado da conversa, já que aqui se escreve pequeno, e aos milhões. E reverência sem considerar o que é reverenciado se aproxima da inveja.

O jeito internético de se manter na reverência é dizer de onde veio. Exatamente como o intérprete de uma música diz quem a fez, para então poder interpretar como quem voa. Vide Elis Regina, que não roubou nada de ninguém e deu a muita música vida que nem os autores imaginavam pudesse sair do que eles tinham feito. Tivesse ela roubado, não teria tido chão de onde tomar impulso para o voo.

Dizer de onde veio, além de preservar o que é possível da conversa que dá vida aos textos, é uma maneira de trazer junto a história. Começando pela história de quem está escrevendo, que conta ter passado por ali onde bebeu da água que derrama agora em voz própria. E passando pela história do que foi trazido nessa visita – história-raiz, que, contextualizando, deixa que o texto enxertado viva.

Ladrões de palavras. As palavras, quando palavras, se roubadas desintegram. Vocês se desfazem junto delas. E ficam com as mãos cheias de impossibilidade: de dar sua voz ao mundo; de colher junto; ou de silenciar.

Ladrão que rouba palavra rouba o impossível. As palavras não se roubam. Elas se dão. E por isso ladrão que rouba palavra fica sem anos de perdão.

domingo, 17 de outubro de 2010

De sonhos, árvores e limites

Ser jovem significa poder ser qualquer coisa que caiba dentro de continuar sendo si mesmo. Ser o ponto de onde divergem infinitos caminhos e ter o pé apontado pra qualquer direção. Poder sonhar ser isso, aquilo outro, apoiando o queixo na mesma janela diária, de onde o mundo acena sempre como convite. E a recusa, por não se saber definitiva, nem tem gosto de recusa. Assim, eu me sonhava, nem tanto tempo atrás, escritora, aventureira, desbravadora, garçonete, andarilha, editora, professora. Morando na praia, na montanha, num navio, num país de língua azul, numa casinha ao som de cachoeira. E tantas outras intimidades.

Eu não tinha percebido antes, talvez por isso o momento tenha se feito de assombro tão violento. E eu não podia supor que a descoberta se daria justamente ali, olhando as fotos de uma amiga na internet. Uma amiga que está trabalhando no Quênia. A cada foto, admiração e dor. Dor?, eu me surpreendia. E a resposta da dor era crescer até sufocar. Um tipo de dor até então desconhecido, que de início eu tentei ignorar, não tendo achado onde enfiar tamanho absurdo. Mas quanto mais eu abafava, mais sem ar ficava. Até que, assustada com meu próprio desespero, saí da frente do computador e fui conversar com minhas lágrimas. Perguntar a elas, no sozinho de um quarto escuro, de onde vinham, pra quê molhavam meu rosto, o que pretendiam.

Elas não me responderam.

E Benjamín dormia no quarto ao lado.

Mas o seco daquelas lágrimas que secaram de silêncio era rastro. Que segui pra conseguir dizer: eu não posso mais fazer o que eu quiser.

Não.

Eu não posso mais ser qualquer coisa que eu sonhe ser. Não posso morar no Quênia, não posso andar sem rumo. Não posso sair pra não voltar, não posso não ter dinheiro. Não posso me inventar de avessos e nem rodar o mundo sem destino nem porquê.

Não posso mais ser sozinha.

Ser mãe abre, mas limita. E isso era a dor. Que foi embora, porque dor dói mesmo é quando ainda não tem nome.

Ter um filho define. Contorna. Por isso minhas companheiras inquietações que transbordavam fizeram malas e partiram. Me deixaram serena com o que se fez minha família.

Ser mãe é um mergulho maravilhoso no íntimo que os dias presenteiam. É o mágico no comum. O milagre: simples.

Mas há que se despedir de alguns sonhos como possíveis. E se despedir de qualquer sonho é também triste, porque traz em forma de adeus tudo o que nunca foi. Mesmo que o caminho para onde os pés agora apontem seja belo, e acolhedor, e desafiador. E preencha de puro milagre os vazios que antes podiam se imaginar árvores.

Árvores: porque se ramificam em impossíveis gestos. E porque dão frutos que são bons é quando amadurecem. E fazem convergir o jovem dos ramos em doçura e em destino.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A sogra

Se uma despedida tem tristeza como tonalidade possível, em se tratando de ir ou sair de Cuba essa tristeza se multiplica por si vezes e vezes. Eu sempre tento esconder bem escondida a grande dúvida, mas ela salta dos lugares mais inesperados, se insistindo nos transeuntes, no vidro do carro, nas chamadas do aeroporto: será que algum dia nos voltamos a ver?

A minha primeira despedida cubana foi assim, mas ali a dúvida pendia mais pra certeza de que nunca mais. Eu e Demis saímos andando para direções opostas na Paseo com 23, esquina em que nos abraçamos pelo que supúnhamos ser a última vez. E que não foi, vide esse mesmíssimo blog, rebento do rebento. Mas então não sabíamos disso, e seguimos cada um na sua direção, sem olhar pra trás pra saber se o outro também tinha lágrimas nos olhos.

E muito tempo e tanta palavra e instante e decisão se passou, e eis que hoje me vi voltando mais uma vez do aeroporto para trânsitos cubanos. Dessa vez, Eva, mãe do Demis, voltando pra Cuba de uma estada aqui em casa de cinco meses. Sua primeira vez fora de seu país.

Cinco meses. Benjamin tem quase seis. Sim, ela chegou quando ele tinha um mês e quatro dias. No meio daquele turbilhão que significa a chegada de uma pessoa ao mundo. Bem quando eu me procurava nos meus gestos como a Natalia-mãe que ainda estava descobrindo. Justo quando não saber era dolorido e vergonhoso e me chamava desde o meu mais íntimo. E então, no começo, a sua presença aqui me foi absurdamente difícil.

Foi necessário paciência e muito boa vontade de todos dessa casa. E no começo Eva tampouco se achava – era visível no olhar marejado que pedia licença o tempo todo. Mas ela foi se habituando aos cantos e achando as brechas que os dias lhe davam, e conhecendo os caminhos e os limites, e tudo foi se ajeitando. Enquanto ela se tornava a maior leitora da casa (ela, que tinha lido pouquíssimos livros antes de sua chegada), a maior andarilha (ela, que passava semanas a fio sem descer as escadas de sua casa em Havana) e a maior cinéfila (ela, que havia dez anos não ia ao cinema), ajudou aqui em casa como eu nem sabia ser possível. Muito leite do Benjamin veio da comida que ela cozinhou. Muita daquela paz de se ver a casa arrumada veio da mania dela de pôr tudo em ordem. Muito do que pude fazer – voltar a trabalhar, tomar banho tranqüila, cortar o cabelo... – veio do que me possibilitou sua presença.

Claro, houve horas terríveis, de querer espaço, de querer silêncio, de querer solidão. Horas de sentir que o limite já tinha passado. Horas de brigar, horas de chorar. Horas de querer ficar sozinha com Benjamin. Horas de querer ficar com Demis e Benjamin. Nós três. Mas eu sabia que as despedidas cubanas levam às últimas conseqüências o não sermos senhores das nossas vidas. E sabia que quando ela fosse embora a gente não poderia dizer quando ela e seu filho se encontrariam de novo. Ou se quando ela e seu neto se encontrassem, ele já estaria falando ou correndo.

E hoje foi o dia em que ela voltou pra sua ilha. E quando nos percebi indo em direção ao carro, Benjamin, Demis e eu, chorei uma tristeza muito triste e aliviada. Muito agradecida também. E feliz. Assim, bem misturado, incoerente, vivo.

Sua ausência ainda grita por aqui. A janela estranha a falta do seu olhar, e o colchão se esburacou a pedido de seus dias. Mas o silêncio tem trezentas camadas, e eu as escuto uma a uma. Escute:

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nasceres

Antes de ser um, brotam de espasmos tuas metades – espasmos que a dor do prazer contrai, ex-pulsando do impossível o que, junto, vira ser.

Você de mim se faz então, de matéria invisível crescendo em corpo, e o suor do teu crescer te rodeia em dentro meu. Habitando-me ao te surgir, ser tua casa me faz casa. E arredondada me nasço enquanto, de novo, te ex-pulso.

Pra novo maior: mundo. Grito chorado choramos no instante em que esse vasto agora se dá. E abafamos com o leite úmido, que tece frases em jorrar-se, a palavra recolhida através de teus goles. Leite então é amor, até a hora de leite já não bastar. E pra amor ser ainda amor, te ex-pulso do meu peito e te recolho em meu colo.

Colho nos braços o que agora consiste na tua amplidão. Mas teu caber já logo não te serve, e preciso estender a casa que fiz pra você aqui perto colado pra perto alonjado. Ao alcance da vista, mas de novo ex-pulso.

E teu correr e ocupar ultrapassa as paredes do mundo que era o meu. Te amar é me recolher em ainda outra ex-pulsão. Só: eu sempre contigo, mas te ensinando a dar passos que nunca conheci, através de te deixar.

E você ganha mundo. Já não te vejo, já não te abraço, já não te alimento, já não te abrigo. Aí, já não existo. É teu próprio pulsar que te ex-pulsa agora; é tão vasto o novo vasto que não tem limite. Por isso finda, no rasgo da cisão do que se juntou naquele ex-pulsar primeiro.



(Nasceres, ou desde um futuro longínquo, ou a culpa eterna da mãe ou agradecimento ao Guto em forma dum dizer)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O prédio da frente (ou uma janela indiscreta)

Quando Benjamin tinha suas poucas semanas, um lugar da casa muito freqüentado pelo colo da vez era a frente da janela da sala. No intervalo de depois da mamada ou no tempo de fazer dormir ou acalmar, lá ficávamos, olhando pra longe (sim, a janela aqui oferece tamanha regalia nos céus ocupados desta cidade cinza) ou pra perto, mais precisamente pro prédio da frente.

Lá ficava eu, Benjamin no colo, horas a fio, com as pernas um pouco afastadas e aquele balanço praláepracá no corpo (há que se dizer que o tal balanço foi flagrado se insistindo em situações equívocas, como elevador, conversa ao telefone, filas de espera variadas, etceteras mil, situações em que os braços estavam desocupados). E, indiscrições janeleiras à parte, fui me apegando mais e mais à fachada, às cortinas, luzes e habitantes do prédio da frente, com seus contornos e hábitos que se tornavam familiares.

Eu contava os andares, adivinhava acenderes de luzes, movimentos, rotinas. Graças ao binóculo à minha visão de lince, acompanhava as horas da senhora do último andar, sentada na poltrona, carretel de lã caindo dos joelhos. E adivinhava o significado dos gestos da conversa do casal do sétimo. Bisbilhotava o que assistia o morador do quinto andar enquanto se empenhava na monotonia de uma bicicleta ergométrica; sorria com as crianças do primeiro, que brincavam enquanto o pai pintava telas no quarto ao lado.

Nas madrugadas, me sentia solitária. O décimo primeiro às vezes dormia tarde, mas às quatro da manhã, mais ninguém. Só aos finais de semana, quando eu adivinhava meias-luzes nas frestas das persianas abaixadas. Quando tudo escurecia, eu buscava no longe qualquer luz de outro prédio, implorando pra me dizer que eu não era a única criatura (além dos outros moradores desta casa) que àquela hora não dormia. (Poxa, eu pensava, não tem mais nenhum bebê na região? Ou será que tem e o meu amado Benjamin é o único da cidade que ainda não dorme a noite toda?)

E os dias foram passando e o amado Benjamin crescendo e o mosaico de luzes do prédio da frente (caleidoscópio disperso no tempo) ficando por ali do outro lado da rua, e nós deste lado de cá, cada vez menos na janela. E menos. E menos. Menos.

Até eu me perceber, olhando de relance a família do sexto na mesa de jantar, saboreando uma certa saudade daqueles companheiros mudos. Uma nostalgia de ter o Benjamin nos braços por tanto tempo. Pequenininho, acalorado no meu balançar, enquanto imaginava o cachecol que se formava pelas mãos da senhora do último.

E nos dias frios que nos visitaram, quando andava por aí na rua, mirava cada senhorinha de cachecol das redondezas com olhos de quem sabe a trama daqueles tecidos.


***

Comemoração bem modesta mas bem contente, envergonhada de pequena, admirada dos queridos blogs aniversariantes de verdade: hoje o leite e prosa faz um mês!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Das curvas, das mães

Imagino que já deva ter passado na cabeça de outras mães. E que quem não tem filhos talvez tenha dificuldade de vislumbrar o tamanho da descoberta. Mas num belo dia, daqueles bem difíceis do começo da vida do Benjamin, eu entendi num clic de ficha caindo que a maternidade iguala as pessoas.

Foi assim: o meu despreparo diante do meu filho era enorme. O passar dos dias (das horas, dos instantes) me trouxe em forma de algum tipo de certeza que o despreparo de qualquer pessoa do universo diante do meu filho, Benjamin, seria também enorme. Porque é necessário despreparo para se estar diante do inaugural. É necessário ignorância. É necessário abertura disposta, e portanto vazia. E também a mudez que pode recolher numa escuta um som que se inicia como linguagem.


Qualquer saber, eu entendi, não seria exato. Ser mãe é ser curva. Desde o redondo da barriga e das mamas até o torto e o impossível das certezas. Passando pelo acolher sem pontas que incomodem – o círculo macio do abraço.


E isso independe da mãe, contanto que o seja. Branca, preta, ruiva, amarela. Biológica, adotiva, escolhida. Pobre, rica, milionária; estudante, analfabeta, PhD. Famosa ou gente comum. Nenhuma condição anterior a ser mãe dá ponto de partida que não seja o zero. Nenhuma condição anterior a ser mãe apresenta, antes que elas mesmas se dêem, as madrugadas insones. A insegurança de dar banho. O prazer de alimentar, qualquer que seja a maneira. O quente dum sorriso banguela. As choradeiras mil (do filho e da mãe). O olhar que se vê no olho que vê pela primeira vez.


Iguais Natalias, Marias, Maries, Giseles; Kalilas, Mitikos, Gimbyas, Jeannes...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Desabafo blogueiro

Li um texto que, assim como a chuva de hoje veio molhar o que estava úmido em mim, inquietou o que já não achava lugar de se assentar. Um texto preciso, belo e assustador.


(estou aqui tentando continuar este escrito e ele emperrou. Não anda, simplesmente. Talvez porque o quê-dizer exija escrita verdadeira. Aquela que motivou eu começar a escrever esse blog aqui, mas que, descobri, é a menos necessária pra continuá-lo. Ontem mesmo me flagrei pensando isso: que pra se ter um blog, o que menos se precisa é escrever. Fazendo justiça com as devidas exceções, exemplo das quais é o blog de onde vem o texto. Mas eu, que me sei habitante da sombra ainda que tão, tão viva, já me assustei com a minha própria alegriazinha ao ver que meu blog tem mais um seguidor. Ou mais um comentário. Ou que o número de pessoas que o vem ler cresce. Bom, ler eu não sei. Mas olhar.


E então eu, que pra começar tive que me haver com as desculpas que me detinham de escrever por tantos anos, me vejo agora com a necessidade de me justificar pra continuar. Já aconteceu algumas vezes de eu estar fazendo outra coisa e de repente me assustar com a lembrança de estar fazendo um blog (fazer, e não escrever, é o verbo exato). Assustar e junto me arrepender. Por que raios, eu penso então, decidi começar esse treco?, eu me pergunto, tentando enfiar nalgum lugar que caiba a súbita vergonha da absurda exposição a que me estou submetendo, como se de repente tivessem me tirado a roupa, ou melhor, como se já eu tivesse tirado minha própria roupa e de repente me descobrisse enfim exposta da minha nudez anterior. Ou quem sabe o que me envergonhe seja o disfarçado da minha nudez. Motivo que me fez vacilar pra escrever este mesmo texto, porque sabe-se lá se as pessoas vão gostar disso aqui.


Pensando ainda no texto que motivou isto que parece estar caminhando prum desabafo, percorro outros incômodos. Por exemplo, aquele que eu sempre sinto ao entrar na Livraria Cultura (será que eu posso dizer o nome dela aqui?). E me ver sufocada de tanto, tanto, tanto livro. E ver sufocada a vontade que eu tinha desde criança de escrever meu próprio livro. Pra quê?, eu sufoco, pequena no meio de tantas capas e cores e mais-vendidos (que eu sempre vou olhar e tenho vontade de comprar), diminuindo ainda a cada passo diante das prateleiras.


Decidi não comprar livros por um tempo. A não ser pra presente. Até agora está funcionando, e eu ainda tenho uns 60 livros no quarto que são os próximos (sim, o número é quase esse, um dia eu contei). Porque eu tinha virado compradora de livros e não leitora. E, quando me vejo na livraria com uns 3 na mão, seguro o ímpeto de compra-los lembrando do que li por cima folheando, naquela mesma livraria, o último livro do José Mindlin. Não vou saber reproduzir exatamente, mas era algo sobre a necessidade de esperar alguns anos pra ver se o novo livro “ficava” ou se não era só mais um livro de capa bonita e nada mais. Nada contra as capas bonitas. O problema é o nada mais e as infinitas novidades.


Infinitas novidades também no cinema. Eu já desisti da mostra de cinema, apesar de ter visto filmes belíssimos nos anos em que mergulhava. Bom, agora com o Benjamin, nem se eu quisesse. Mas ano passado eu estava grávida e até poderia ter de novo a tal da credencial, mas a gravidez dá uma medida pra importância das coisas que me fez escolher não ir à mostra com aquele furor. Não dá tempo de degustar, de deglutir, muito menos de digerir. Não dá tempo. E quando não dá tempo, ao invés de correr, é preciso desacelerar. Permitir-se debruçar sobre um instante apenas.


Talvez por tudo isso me seja tão difícil reler. Tenho a terrível sensação de que poderia estar lendo algo “novo” ao invés de algo de novo. Mesmo que eu saiba que a releitura às vezes nos dá a verdadeira leitura pela primeira vez. Lembro das anotações de uma querida amiga, que tem um barco e se chama Bia, que ocupavam todo o espaço em branco da folha, num mergulho incomum e maravilhoso. Eu queria poder ler como ela.


Mas chega deste parêntesis).


E o escrito que eu queria não consegui continuar. Estou meio brava. Vou sair da frente computador e viver minha terça-feira chuvosa de feriado.


Respeitável público, amanhã eu retomo os textos desse blog como têm que ser. Sem desabafos digressivos livre-associativos.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Influências

Preciso confessar uma coisa. Se o tipo de letra pudesse ser, ao invés de arial ou verdana, “cochichado”, isso que você lê agora seria sussurrado ao pé do ouvido.

Mas precisa ser dito, por uma questão de esclarecimentos.

Sabe quando você lê um livro daqueles muito bons, impossíveis de largar, cujo autor tem todo um estilo próprio admirável, e quando você vai escrever se pega usando frases, construções, neologismos, à la tal escritor?

Então. Isso tá acontecendo comigo. Mas não com o livro que eu to lendo, que por sinal tá borocochô todo esquecido do lado da cama, juntando poeira, desde que comecei esse negócio de blog. Tá acontecendo é com os blogs!

Caramba.

Eu me pego escrevendo “entãos”, “daí quês”, e tentando (obviamente em vão) todo aquele traquejo gostoso da
Mari. Corro atrás da ironia deliciosa e habilíssima da Roberta (e penso depois daqueles posts dela, comé que eu vou conseguir escrever um post de novo, desgramada?). Planejo mudar o blog pra ficar bonitão, bem escrito e todo musical como o da Carol. Me guio pela sensibilidade e beleza dos posts da Mari. Tento a delicadeza carinhosa e tranqüila da Flávia. A versatilidade bem humorada e escrita da Carol... (eu poderia continuar, mas poxa, aí o que sobraria pra dizer que é meu???) Aimeodeos (diria a Jú). E isso que eu to só começando essa vida de blogueira.

Além de sofrer um abalo de identidade próprio da maternidade, tem esse também? Ondé que foi parar meu estilo, se é que eu tinha um? Será que vai ser igual as manchas na cara, a barriguinha flacidinha, coitada, o cabelo liso, o peito que num aponta mais
pra lua não – coisas que fazem as pessoas te olharem com pena e falarem, pra ver se ajuda, que vai passar?

(aproveito o tem confessional pra declarar minha total crise com o cabelo liso. Quero meus cachos de volta! Eu tenho cabelo pixainzinho! Tenho, tenho, tenho! Cadê ele, pô?)

E, gente do céu, como é possível conciliar mãescença, trabalho, esposice, leituras (que eu pretendo retomar um dia) com ter um blog? Existe alguma maneira? Hein? Hein?

Bom, tá dito. E agora me retiro que ainda vou vasculhar algumas gavetas que faltaram pra ver se encontro escondido por lá o tal do meu estilo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Curtas (ou intervalos de alegria e tristeza)

Ontem tentamos dar água pro Benjamin pela primeira vez por causa da secura absurda desse tempo. Tomar mesmo, acho que ele não tomou. Mas ver a mãozinha dele tentando segurar a mamadeira era tão bonito que eu quase esquecia o motivo terrível daquilo.

***

Tem uma planta morta na sala aqui de casa. Era uma planta grande, linda, que bendizia a casa há mais de três anos, e há uma semana estava forte, com plantinhas pequenas nascendo e tudo. Secou. E agora tenho um cadáver no vaso, que me entristece sempre que passo por ali e do qual não sei como me livrar.

***

A mesma mãozinha deliciosa do Benjamin fica segurando meu dedo, enroscadinha toda num só dedo meu, sempre que ele mama. E como é bom saber que a sede dele é saciada com a água que eu bebi.

***

O prédio da rua do lado já está com 18 andares. Os prédios, porque são dois. Sabe-se lá a que alturas chegarão, porque não dão mostras de que pretendam se terminar tão cedo.


***

Quando o Benjamin acorda ele chama a gente com algum tipo de grito. E quando a gente chega no quarto ele já ta olhando pra porta esperando a gente chegar, e ao escutar nossa voz ele abre um sorriso que abre a boca que afinal é pequena pra tanto sorriso.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sobre a secura e outras vidências*

Todo mundo gripado aqui em casa. A trilha sonora esses dias tem sido um tanto quando escatológica. Espirros, tossidas brabas, nariz assoando duro. Além dos gemidos e reclamações. E do barulho do inalador ligado.

Na janela, a nuvem de poeira aumentando. Dá pra ver a secura. Até pra respirar, dói.

E como se não bastasse tanto mal estar, tenho recebido a visita de outro incômodo. Uma aflição vestida de preocupação, que oscila entre se perder em dias comuns e vir na forma de uma vertigem do mal quando a coisa fica feia.

É que o mundo ta ficando sem canto. Sem refúgio. Uma sensação terrível. Ainda mais quando se tem um bebê de quatro meses na frente, lindo, gostoso, com todo um futuro pela frente.

É uma tristeza doída que me vem quando eu penso que o Benja vai sofrer ainda muito com o clima. Que ainda vai passar por muitos dias malvados de secos como este. Que ainda vai enfrentar muita enchente, como as que a gente viveu no começo do ano. Que talvez veja ciclones (se escolhermos algum dia viver em Cuba). Que vai sentir incômodos, e vai sentir medo.

Ai, como eu queria um mundo melhor pro meu filho. Sem pieguice. Falo sério. Me falta otimismo? Estou catastrófica? Quem dera o problema estivesse na minha cabeça. Mas eu olho pela janela e vejo o dia cinza.

(e vejo também outro pedaço de céu sendo roubado das minhas manhãs, cada dia menor, na proporção em que se levantam mais esses dois prédios de escritório aqui na rua do lado)

Mãos à massa, alguém pode dizer. Concordo. Há que se fazer o que está ao alcance. Mas isso me parece tão pouco. Parece que o estrago já tá feito. E que o que deveria mudar na verdade nem está em questão.

Me disseram: você deveria ter pensado nisso antes de ter filho.

Mas é que eu vi um bichinho verde, no jardim que não existe aqui em casa, chamado esperança.



*Um pouco do título deste post peguei emprestado de um livro não publicado de um amigo que já não sente o seco deste clima. Saudades, Rafa.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O dia D

Ontem perguntei pro Demis se podia contar nossa história aqui. Ele relutou, porque a gente tinha combinado lá no começo que nenhum dos dois a escreveria, mas acabou deixando. O problema, eu percebi, é que nem eu mesma sei se a consigo ou posso escrever. Seria (de novo as tais ressalvas) algo como fixar o milagre, e haveria o pressuposto de ela já estar pronta, finalizada, o que nunca estará. Se eu a escrevesse, sinto como se tivesse que o fazer muitas vezes, pra não dar a uma versão a possibilidade absurda de ser definitiva.

Mas agora nem a primeira versão me vejo apta a arriscar. Faço todo esse ensaio cheio de vai-num-vai só pra justificar que o que vem aí é só fragmento, necessário pra dizer outra coisa – também milagrosa –, e sabe-se lá quando vem o que faltou.

O Demis é cubano, e foi em Cuba que a gente se conheceu. Depois de algumas idas minhas praquela ilha mágica (costumo dizer que, depois da minha primeira ida à Cuba, demorou pra eu conseguir viajar de novo pra outros lugares), percebemos, eu já de volta no Brasil, que a gente queria mais tempo de primavera e decidimos intentar (em espanhol) que ele viesse pra cá. No começo achamos que ia ser fácil e eu escolhi uma data pra ele chegar. Era dia 6 de abril de 2007. Começamos a chamar esse dia de dia D. Mas as fronteiras e diplomacias e burocracias não deixaram que a gente tivesse a pretensão de escolher a tal ponto nosso próprio destino, ou foi o destino mesmo quem escolheu assim (porque destino é homem barbudo), e o Demis chegou só em agosto. Mas dia D mesmo, ficou sendo aquele que não tinha sido.

Quando o Benjamin nasceu eu nem tinha ligado os fatos e números, mas um tempo depois me veio o estalo. O dia D que a gente tinha escolhido não era pra chegada do Demis. Era pruma outra chegada, de outra ordem.


Benjamin nasceu em 6 de abril de 2010.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Rápidas (bem, nem tão rápidas assim)

Falando na chuva que já foi, achei no caderninho que andava perdido por aí (escrito na noite antes do nascimento do Benjamin):

Benjamin e a chuva

Foi numa madrugada de tempestade que descobri que te esperava. E é numa chuvosa que me delicio com a última insônia em silêncio*. Só o barulho da água, e alguns carros passando.
Você parece já gostar da chuva, Benjamin.



* Última insônia, nada. Várias vezes aconteceu de depois de o Benja acordar e logo dormir, eu ficar me revirando na cama, de olhos estatelados, perguntando onde é que se escondeu aquele sono todo da hora que ele acordou. Às vezes Demis me acompanha na insônia. E um dia propôs, depois de umas 2 horas tentando dormir: vamos lá acordar ele? A proposta fez cócegas, confesso.

* A insônia era a última, porque eu sabia que o Benja ia nascer no dia seguinte porque o obstetra tinha induzido o parto e, se mesmo assim o Benjamin não nascesse, seria cesárea. Mas outro dia falo disso com a devida calma.


***


No mesmo caderninho, achei, escrito ano passado numa viagem* quando estava grávida de quase 3 meses:

Os turistas são um saco, e ser turista é um saco. Turista é muito diferente de estrangeiro. Estrangeiro é outro. Turista carrega o mesmo, busca o mesmo e vê o mesmo. Sem se dar conta, o turista destrói o lugar sem ao menos haver estado ali.

Acho que isso diz da diferença entre, além de visitantes, escritas, fotos, recordações... (né, Mari (Rocha)? - vide comentario dela no post das desculpas)

*A viagem também será, oportunamente, assunto por aqui. Eita, viagem difícil. Não recomendo viajar grávida sozinha pra ninguém...


***

Pensei se valia a pena dizer isso e acho que não vale, mas resolvi dizer mesmo assim. É uma questão de quem veio primeiro. Na verdade, foi a Gisele que imitou o nome do meu filho. A Baxinha, que sugeriu o nome, que o diga, né, Ba? Até pensamos em mudar depois que ligaram, tirando sarro, dizendo que o filho da Gisele também se chamaria Benjamin. Mas achamos que seria ceder às influencias mudar só por causa dela.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Benjamin desde a chuva

Esse dia chuvoso...

Benjamin, antes de ser Benjamin, já gostava da chuva.

Descobri que estava grávida numa madrugada chuvosa. Tinha comprado o teste à noite e estava esperando o primeiro xixi do dia. Acordei umas 3, 4 da manhã com um barulho de chuva forte na janela, um barulho que assustava. Corremos pra ver se tudo estava fechado e o Demis voltou pra cama. Eu não. Meio sonolenta, vi o sinalzinho do positivo. Vertigem. Uma tal de felicidade desesperada, pasmada. Nem sei se ali chamava ainda felicidade. Fui pro quarto contar pro Demis. Silêncio. E o significado daquele silêncio, só depois entendemos (ou chegamos perto disso).

No dia do nascimento do Benjamin também chovia. Lembra aquele calor insuportável que fazia no começo do ano? Foi o final da minha gravidez. Na terça-feira, dia 6 de abril de 2010, o tempo virou, e amanheceu chovendo. Chovendo muito. Só poderia ser naquele dia. E foi.

(no meio disso que eu escrevia, o Benja acordou, ou melhor, não dormiu, e brincamos na sala, e troquei a fralda, e cantei pra ele, e coloquei de novo no berço... e agora já faz sol.)
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