segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Relato de viagem (ainda difícil, mas nem tanto) - parte II

Feliz viagem de trem quando nos leva de onde não queríamos estar.

Feliz chegada ao abraço da irmã ali na plataforma mesmo, com direito a emocionar-se por chegar no que acolhe e fazia tanta falta. E por ela estar diante de mim grávida do Benjamin pela primeira vez.

Lembro bem do caminho da estação até a casa dela, as duas falando sem parar, aliviadas pela familiaridade enfim, fazendo emergir contenteza das respectivas tristezas (ela também passava por um momento bem difícil com o namorado holandês).

E mesmo acordando quase toda noite assustada com o que se passou em Paris, mesmo imensamente triste por não saber mais como pensar naquele querido amigo como querido amigo, mesmo ainda longe do Demis, a casa da minha irmã e ela me deram aconchego pra que eu pudesse gostar de estar ali e ousasse caminhar por aquelas ruas cheias de bicicleta com a devida curiosidade. Eu me lembro de sorrir enquanto andava e de travar os primeiros diálogos em voz alta com quem crescia debaixo do meu umbigo.

Ao comprar a passagem de trem Paris-Rotterdam – o que tinha feito no Brasil antes de descobrir que estava grávida –, eu imaginava uma estada na Holanda bem diferente do que de fato foi. Imaginava festas e altas bebedeiras e experimentações. Imaginava andanças curiosas e novos amigos turistas. Imaginava estar aberta pra inundação que pode ser viajar. E, claro, a minha estada ali foi bem diferente disso. Calma, vagarosa, até delicada. Com, ainda, muitos momentos difíceis, ainda que a presença da minha irmã os apaziguasse. Com muita caminhada, sim, mas a passo lento. Com muita experimentação, sim, mas de peixes deliciosos. (E com muitas compras na “H&M mama”!)

Ser turista ainda era difícil, principalmente em Amsterdam. A cidade é muito movimentada e muito pouco acolhedora. Tenho tido dificuldade em me sentir tocada pela beleza das coisas. Isso tem acontecido só de longe. Me sinto extremamente tocada pela saudade.

Mas houve ruas em que foi mais fácil transitar. Cidadezinhas lindas com seus canais e habitantes. Ilhas de areia onde até me arrisquei na bicicleta. Tudo permeado por uma busca nova. A nova maneira de viajar a que eu me via obrigada me lançava em outra busca, mais essencial. Estar grávida me impelia a me repensar inteira. Ou me pensar pela primeira vez. Agora, diferente, outra plenitude já me habita, e não há espaço para outras buscas. Tenho que tatear com os pés como se aprendesse a andar com outras pernas, que são também as minhas.

E foi na Holanda que fiz o ultra-som que disse que aquele que crescia era “ele”. Que cabia todinho na imagem e se mexia, me arrancando lágrimas felizes.

E foi na Holanda que percebi que uma antiga vontade de morar na Europa, de fazer algo por lá, já não existia em mim. A frieza do tempo e da língua e das pessoas me dizia constantemente que eu sou do país do abraço, qualquer que seja esse país.

Depois de duas semanas zanzando pelas terras baixas com a barriga (que já começava a despontar numa dureza diferente do resto), rumei a Barcelona, como havia planejado. E a última parte da viagem conto depois.


Em Vlieland, Holanda

8 comentários:

Paloma, a mãe disse...

ainda bem que foi ficando menos difícil e teve até ultrassom revelador. apazigou meus ânimos maternos, ufa!
beijos

Daniela Lopez Garcia disse...

Essa parte da viagem até foi bem bonita!!
Não fosse a vontade de estar ao lado de quem te ajudou a realizar o milagre que crescia dentro e fora de você....
A gente fica mais chicletinho mesmo na gravidez, por querer curtir junto, amar junto e sentir junto uma mistura dos dois em um...
Lindo o que estava sentindo!!
Beijos!
Dani.

Kah disse...

Infelizmente nem sempre as pessoas que amamos estão no mesmo ritmo que nós, o que acaba causando confrontos e desencontros, né? Nessas horas não tem nada melhor do que estar em "terras conhecidas" e com pessoas que estejam no mínimo em um ritmo parecido.
Mas com o tempo, e um acelerando e o outro freando, a gente acerta o compasso.
Beijão!

Marina Fiuza disse...

Esses relatos estão acordando em mim tantas lembranças...

Ferna disse...

Coisa boa um abraço de irmã no meio dessa avalanche de sentimentos que tu estavas passando.
E quer experiência mais louca pra se viver na Holanda, do que ver teu menino pela primeira vez?
Os frequentadores dos coffee shops não sabem o que é viagem! rsrs

beijo

Carol disse...

"Eu me lembro de sorrir enquanto andava e de travar os primeiros diálogos em voz alta com quem crescia debaixo do meu umbigo." ADOREI essa parte! Deve ser algo divertido e esquisito, rs...

curiosa por Barcelona!

Anne disse...

Ai Natália, que história bonita! Benjamin vai adorar ouvir. Esse ultrassom é tudo de bom... bjo
Anne
mammisuperduper.blogspot.com

Leticia W. Borges disse...

vc fez um ultrassom na holanda?
rs... é, realmente as milhares de experimentações eram outras.
beijos, cherie.
já disse e repito: mandem as fotos que tiram! quero muito ver eu, vc, benja e o samba! poxa, poder provar que já sambei com o benja e contigo.
beijos, cherie.

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