domingo, 3 de outubro de 2010

Relato de viagem - parte III: grávida em Barcelona

E então, depois de uma estadia espinhosa em Paris consolada por outra no aconchego da irmã em Rotterdam, era hora de seguir viagem outra vez. Só que Barcelona, o destino escolhido com alegria naquele remoto dia em que comprei a passagem (e ainda não sabia que estava grávida), ao invés daquele cidade colorida e festeira que eu sempre tinha querido conhecer, havia se transformado numa gigante interrogação. Eu não tinha nem onde ficar nem conhecia ninguém que fosse próximo. E de interrogações, já bastavam as da própria gravidez.

Tentei mudar o itinerário para passar todos os dias que restavam da viagem com minha irmã, mas a taxa era tão alta que não valia a pena. Juntei, então, o que consegui encontrar de coragem e fui, tendo reservado antes um albergue que parecia perto do aeroporto onde eu chegaria.

Pausa para contar brevemente do dia que passei em Bruxelas com Verinha, regado a boa conversa e abraço daqueles. Parecia que estar em casa (ela) fora de casa (e para isso são os amigos) tornava a sua visão ainda mais familiar, querida e necessária. Foi Verinha quem me acompanhou ao aeroporto num trajeto emocionante de quase perder o vôo. E agora vejo: é muito bom ter de quem se despedir. Obrigada, Verinha, pelo dia e pelo abraço.

À noite do dia em que saí de Rotterdam, depois de passar por Bruxelas, cheguei em Barcelona. Com medo e encolhida. Querendo cuidar da minha barriga e nada mais.

Peguei um taxi pro albergue que havia reservado, mas a reserva havia sido completamente desconsiderada e o amável e delicado administrador daquela espelunca casa me enxotou pro outro albergue deles em plena Rambla, em plena noite, eu, a barriga e a mochila, a pé. Um americano simpático havia sido enxotado também, e fomos juntos, eu falando amenidades pra num cair no berreiro, ele se oferecendo pra levar minha mochila, o que teria aceitado se a dele já não fosse maior que ele próprio.

Escrevi, na manhã seguinte: A pior noite da história. Barulho dentro do quarto, barulho da rua, calor, cama ruim, pessoas entrando e saindo, gente roncando, caminhões passando lá fora, gente gritando aqui e lá... Queria chorar e não tinha onde pudesse estar SOZINHA. Decidi ir prum hotel. Hoje, acabada, meio zumbi andando pelas ruas (devo ter dormido no máximo, com muito otimismo, umas duas horas)...

Esse tipo de perrengue, que em outras circunstâncias seria normal, não combina nada com gravidez. Nada. Muito menos com quase três meses, e muito menos sozinha. No dia seguinte, chegando ao hotel, me esparramei na cama e fiquei ali, curtindo o conforto, o silêncio, o banho. Curtindo a barriga que despontava. Sentindo o tanto de saudade, companheira fiel.

Poucos dias depois, porque boa companhia era necessária e porque meu orçamento não era compatível com ficar todos os dias que faltavam no hotel, fui recebida na casa de um amigo brasileiro da minha irmã, o Alex Kblo, que morava com o Tito e duas lituanas, e recebia em casa, além de mim, o Arthur. E a partir daí, em convivendo com esse povo muito acolhedor, a viagem foi ficando mais leve, e Barcelona pode ser a lindeza e a delícia que é. Claro, meu ritmo era muito diferente dos outros da casa. Eu não agüentava sair à noite sempre, acordava cedo pra comprar pão, ia à praia de manhã enquanto os outros dormiam. (Foi em Barceloneta que Benjamin entrou na água do mar pela primeira vez).

Em uma semana volto, que delícia (eu contava os dias desde Paris), e agora tudo ficou mais tranqüilo na companhia dessas pessoas, aqui virou delícia também e a saudade não é coisa fixa, é coisa como vento, vem e passa, ou como nuvem que muda de formato toda hora... Muito obrigada, Kblo, pela companhia, pela casa, pela acolhida; muito obrigada, Tito, pela música (até hoje escuto aquela Ciranda*), pelas conversas, pelo feijão; muito obrigada, Arthur, pelos papos e caminhares!

E, sabe, fomos uma noite, Kblo, eu e as lituanas, num desses lugarezinhos meio botecos, agora não lembro o nome, comer tapas, e ser esbarrada de leve pelas pessoas me foi extremamente alegre. Como é bom, depois da frieza da França e Holanda, poder encostar de novo nas pessoas...

Mas mesmo sendo muito bom estar em Barcelona, a melhor parte da viagem não foi ali. Nem na Holanda, e muito menos na França.

A melhor parte da viagem, eu não tenho nenhuma dúvida, foi no Brasil.

Foi a volta. Foi abraçar e cheirar e olhar o Demis no aeroporto. Foi chegar na nossa casa, felizes, eu e Benjamin crescendo na minha barriga, aliviados de estar enfim ali, e sabendo que, tão cedo, nós três não nos separamos.



15 comentários:

Carol disse...

Ahhh... que bom que o final foi belo... Morro de vontade de conhecer Barcelona... aiai... Até que fim os "terrores" terminaram, aff! Que ódio do carinha e desse albergue! Aff... um beijo e boa semana pra vcs três!

no estrangeiro disse...

nossa, vou pra Barcelona em Novembro, estarei de 3 meses tambem! Espero que minha viagem seja mais tranquila.

Que bom que depois de um inicio turbulento, voce ganhou aconchego de pessoas bacanas.

Beijos,

Tata

Paloma, a mãe disse...

Sabe que minha primeira vez em Barcelona foi uma droga e eu nem estava grávida? E também fui enxotada de um albergue, mesma coisa. Por sorte, voltei no ano seguinte e curti a cidade, as pessoas, tudo.
Mas, com certeza, em uma viagem como esta, a melhor coisa é a volta. Dá vontade de grudar com superbonder pra não correr o risco de se separarem novamente, né?
Beijos

Ilana disse...

É Natalia, você foi muito corajosa mesmo de ter feito essa viagem (segundos de admiração!).
Que bom que tudo terminou bem! E que bom que, apesar de toda solidão sentida, o Benjamim pode te fazer companhia nessa anventura.
Bjs

Anne disse...

Final feliz, que história bacana Natália! Benjamin vai adorar ouvir! Mas que astúcia do catalão enxotar uma mulher grávida!! Não sabe ele que uma mulher grávida acredita ser (e é) o ser mais importante do mundo, e que não pode ser contrariada em hipótese nenhuma!? Coragem, vc podia tê-lo esgoelado, grávidas são inimputáveis. (não sei direito como é na Espanha)... seria um complemento interessante para essa aventura "...e aí Benja, a mamãe esgoelou o espanhol e passou uma noite no xilindró..."
Bjos!!!!
Anne
mammisuperduper.blogspot.com

Natalia disse...

Anne, fiz uma injustiça com o querido povo espanhol... O dono do albergue era estrangeiro!

Pati disse...

Natalia
obrigada pela visita no blog e já coloquei o nome dos livros lá!
Imagino que triste a história do Benjamin perder peso, mas que bom que vc já está seguindo fortemente as papinhas! é isto aí!
voltarei aqui sempre, ADOREI seu blog
bjs

Daniela Lopez Garcia disse...

Que bom! Final feliz!
Ainda bem que em Barcelona tudo foi mais leve... tirando o albergue é claro!!
Nada mais gostoso que ler o último parágrafo!
Bjs!!
Dan.

Flavia disse...

poxa que pena que ainda não existia o leite e prosa, né? ... A gente tinha marcado de se encontrar, certeza!
eu que sempre fui muito aventureira, nunca encarei numa boa viajar sozinha. (sempre foi matéria pendente pra mim)

bjs

Tatiana Bonotto Cake Designer disse...

Para comemorar o DIA DAS CRIANÇAS vou sortear um cesta dos meus doces lá no meu blog.
Será um prazer ter sua companhia, participe: www.tatidesignercake.blogspot.com

Ferna disse...

Que final de viagem gostoso, ufa!
Eu amo Barcelona, tenho essa sensação também de que são mais "gente de verdade", dá pra esbarrar, beijar, abraçar...

Kah disse...

Bem, na minha opinião você foi super corajosa viajar sozinha gravida, e deu um azar enorme de várias coisas darem errado.
O bom de viagens assim é a volta. rsrs

E sim, deu a entender que sentia um bocadinho de saudade da sogra. hahahahahaha Bem que eu devia ter desconfiado. hahahaha
Beijão!

Val disse...

É doído querer ter alguém perto ou estar perto de alguém e não poder. somos como aqueles prisioneiros que marcam a giz os dias que faltam para serem livres.
Que bom que tudo acabou bem. E eu aqui pensando que, no final da história, o Demis ia te buscar em Barcelona, com saudades do filho, hehehehe,

Juliana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliana disse...

Uau Nat, estou impressionada com tamanha força desta sua viagem... durante a leitura acho que vivi um pouco de vc, mas ao mesmo tempo vivi muito de mim nas minhas próprias situações e como as coisas se desenrolaram... Enfim, só consigo comentar: que FORÇA amiga que tu tem tanto da vivência como da escrita, arrasou!!! saudades imensas, beijão

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