segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O nascimento

Sempre achei que teria parto normal. Aí na faculdade de medicina aprendi que o problema de coluna que eu tenho poderia atrapalhar e que era, então, indicação de cesárea. Fiquei meio cabreira, mas como ter filhos naquela época era algo absolutamente distante, deixei a coisa de lado e achei que até o meu parto os avanços da medicina já pudessem ter resolvido aquilo.

E então engravidei. Não foi uma gravidez planejada nos rigores todos do termo, mas foi mal e mal evitada. Tanto que aconteceu, alguns anos depois daquele dia em que eu via meu parto como a décadas de distância. E foi surpreendente, mas imagino que mesmo a notícia da gravidez mais planejada seja pura surpresa. Porque não há como não ser assim o novo mais originário, a origem em sua forma mais poética, que é, por sua natureza, também a mais puramente literal. E, sabe?, acho que sei o dia exato em que engravidei. Foi no quarto do Benjamin, que era onde ficavam os pufes e a televisão. Mas a televisão não teve participação nenhuma, quem teve foi um livro chamado A chave de casa de uma moça chamada Tatiana Salem Levy, de quem eu tinha tomado conhecimento alguns dias antes, na FLIP. Essa Tatiana não sabe, e nem eu sabia então, da importância desse livro pra minha gravidez. E a FLIP não sabe, e nem eu sabia então, que a menstruação que descobri no banheiro do posto de gasolina da estrada rumo a Paraty fazia daquele o DUM, ou dia da última menstruação. (Pra quem não é médico nem pai nem mãe, esse dia é usado pra calcular a idade do feto ao longo de toda a gestação e pra estimar o dia do parto).

E minha barriga foi crescendo deliciosamente e me avisando que era hora de ver aquele negócio de parto. Eu continuava de alguma maneira achando que teria parto normal, porque seria no mínimo injusto este ser vasto das minhas ancas não ter nenhuma serventia. Então fui no ortopedista averiguar se os avanços da medicina desde aqueles idos tempos da faculdade já eram suficientes pra garantir o parto que eu queria. Os avanços não, mas as pregressas sessões de RPG, fisioterapia, alongamentos e a boa vontade do médico fizeram com que eu saísse do consultório feliz e saltitante (saltitante dentro da medida possível pela minha já grande barriga), ligando pro Demis e pra quem mais se interessasse pra avisar que já estava definida a via de saída daquele que habitava meu dentro.

Mas aquela grande barriga foi ficando cada vez maior, e maior, e maior, porque aquele que habitava meu dentro crescia, crescia e crescia, até que chegaram as esperadas 37 semanas, e nada. A grande barriga lá no alto, eu interpretando os movimentos quase circenses do Benjamin como tentativas de encaixar, e as semanas passando. 38. Entrei de licença de um dos trabalhos. 39. Entrei de licença de outro. 39 e seus sétimos. O quarto pronto, o cinema com o gostinho de último, a insônia aumentando e uma pulga atrás da orelha também. Até que o querido obstetra (que merecia um post só pra ele) disse: olha, ele tá muito grande. Se crescer mais não passa. E eu me segurando pra não chorar.

Pausa para digressão. Quando uma querida amiga minha teve um filho lindo-maravilhoso nascido de cesárea e eu vi no seu rosto a decepção por não ter sido parto normal, eu pensei bem lá dentro dos meus botões que ela devia estar reclamando à toa, porque, poxa, o que importava afinal era que tinha ido tudo bem. Foi só quando a iminência da cesárea se apresentou pra mim que eu entendi que decepção era aquela que ela tinha sentido. Insuficiência mais incapacidade elevadas à culpa mais frustração é a equação que resume um pouco o estado. Porque essa história de parto normal a qualquer custo, junto com todas as idas à maternidade que eu já tinha imaginado e todos os gritos de dor que os meus sonhos já tinham ouvido (e nunca houve dor que eu esperasse tão ansiosamente) me deixavam ali, chorando no sofá, olhando a minha barriga e me perguntando por que ela insistia em escrever a história dela e não em seguir o script que eu e o mundo já lhe havíamos oferecido.

(que bom, barriga, que bom que você me mostrou desde aí que vinha era pra se inaugurar; obrigada, Benjamin, por desde as entranhas insistir em ser si mesmo.)

E a nossa história, que enfim se deu, foi a seguinte. Se ele não nascesse no fim de semana, o obstetra induziria o parto. E no fim da tarde de segunda-feira ele colocou lá a tal da coisa para induzir, e eu e o Demis fomos jantar fora. Nossa despedida de restaurantes sabe-se lá em quanto tempo. Um jantar delicioso, e eu atenta a qualquer contraçãozinha.

Em casa, outra insônia. Uma insônia muito especial, porque era provavelmente a última antes de eu ser mãe. Antes de eu conhecer o Benjamin de outro jeito. Antes de eu poder abraçá-lo com os braços ao invés do ventre. As horas acordada eu fiquei no quarto dele, sentindo o vazio que estava prestes a ser preenchido. E sentindo o cheio em mim que logo ficaria vazio.

Amanheceu chovendo. Eu e o Demis fomos ao consulado de Cuba entregar um papel que faltava para a solicitação de visto da mãe dele, e que tinha chegado na tarde anterior, antes da nossa ida ao obstetra. Depois do consulado, fomos comprar um tênis pro Demis. E depois ao cinema. Assistimos Soul Kitchen. E depois voltamos para casa. E ficamos esperando a ligação do consultório do obstetra, porque uma moça havia chegado à consulta em pleno trabalho de parto e ele tinha ido ao hospital (tive inveja dessa moça com suas contrações.)

À noite, fomos ao consultório e a indução não tinha funcionado. Veio uma onda de tristeza e depois aquele marzão de uma alegria meio nervosa. Seria mesmo cesariana, então fomos pra casa pegar as coisas e depois para a maternidade.

Eu tinha ainda algum tipo de esperança de que eu entrasse em trabalho de parto por milagre. Mas o milagre foi outro. E foi simples. Foi o nascimento do Benjamin. Porque quando eu escutei seu choro eu senti o que de mais intenso me visitou na vida, e seria inútil tentar buscar um nome que descrevesse aquilo.

Com o choro dele e a mão dele no meu rosto foi embora qualquer coisa que não fosse ele mesmo.

E, depois que tiraram ele de perto de mim, eu caí num cansaço absurdo como se tivesse sido esforço meu ele nascer. Perguntaram até se o anestesista tinha me dado algum calmante. Não, ele disse. Era algo como sair de um transe, de uma condensação mágica de tempo, para entrar no que pode significar a palavra sim.

Benjamin nasceu muito bem, com 4125g. E eu agradeci por nós dois que ele tenha vindo como veio.






9 comentários:

Luciana disse...

Naty, esse e o do "Dia D" pra mim foram os melhores... Eu entendo a culpa da cesárea, mas o que mais me encantou foi a descrição dele, e do choro dele, e da mão dele... Coisas que só a gente entende, né?

Mari Rocha disse...

Nati,
já ensaiei alguns comentários mas a verdade é que um relato bonito como esse, sobre um parto vivido assim, com toda a intensidade, não deixa muito espaço pra comentários... é só ler, admirar a foto e sentir.
beijo!

Carol Garcia disse...

lindo lindo.
chorei.
me emocionei.
lembrei de mim.

obrigada pela visita!

bjocas

Flavia disse...

Uau!
Que linda foto, que lindo relato, dá pra sentir a emoção do milagre.
Parabéns Natalia por todo esse amor que transborda.

um beijo carinhoso

piscardeolhos disse...

que foto é essa, gente???
to-da arrepiada, natalia, o que vem a ser essa mãozinha?!!
e que grandito esse fofucho nasceu, hein?
beijo pra vc, querida.

Marina disse...

Naty, que coisa linda!
Estamos o Fe e eu, deitados na cama, lendo seu blog e esperando o horário do rodízio. Desde a primeira vez que mostrei para o Fe, nós dois temos acompanhado seu blog com muito carinho e satisfação. Sua emoção contagia todos e empolga nossos planos de futuro.
Estou encaminhando seu blog para a Dra. Mamis.
Grande beijo para todos vocês.
Marina e Fe

luíza disse...

que narração de parto poética, sem escândalos como a minha (ahahahha).
que lindo seu benjamin! sou apaixonada por todos os benjamins que existem! ahahhahaha

beijinhos e parabéns

Val disse...

Nunca vi um relato de um parto tão bem descrito, tão íntimo e tão bem dito. Mesmo quando as palavras faltam, vc as diz. Lindo texto.
Parabéns.

e que meninão grande vc teve, hein!

Marina Fiuza disse...

Que delícia ouvir essa história. Eu também tive cesárea. Também descobri isso por um problema na coluna e na época senti uma tristeza sem entender qual era, afinal, gravidez era algo distaaaante. Quando engravidei os exames da coluna ainda estavam super atuais. hehehe

Que bebezão esse Benjamin! Parabéns Nat, parabéns.

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