segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

As melhores coisas do mundo


Quando o filme começou, encontrei pronta minha pior e mais fácil armadilha: as críticas estavam já engatilhadas e prontas pra serem atiradas no que parecia se compor como um filme adolescente, no sentido mais pejorativo do termo. Mas o que pra um olhar viciado pudesse parecer banal foi se mostrando estratégia: o simples tinha um contexto, e era só o início da história. Uma história adolescente, no sentido mais belo do termo.

Quando me dei conta, estava já enredada na trama das minhas próprias críticas, embolada nas confusões da minha própria adolescência, pega pelo que parecia fácil e se revelava isca pra minha mais recôndita juventude. Que era quem, deliciada, assistia agora ao filme.

E a delícia do jovem enredo me dava as mãos ao me apresentar toda a complexidade do tempo em que precisamos, afinal, começar a nos reconhecer, e em que se anuncia, primeiro como duríssima carga, o primeiro lampejo de que cada um se deve como único a si mesmo e ao mundo. Assim, ressoava no debater-se de Mano aquele que eu considerava, equivocada, resolvido em mim. Porque é só através daquela mesma angústia, agora atualizada, que eu podia me perguntar se as minhas escolhas haviam dado à adolescente que fui as devidas reverências, e se aquele lampejo havia se feito chamado para que, caso sim, eu o pudesse atender.

Na atualização daquela angústia se atualizava também, mas vinda de outro tempo, a angústia adolescente de meu filho; frente a frente, ambas se acompanhavam e assim se transmutavam de angústia em beleza. Uma beleza que dói porque se sabe temporal; epifânica, suspendia o mundo deixando à luz somente gestos adolescentes de ambos os lados de um espelho: refletidos, meu 15 anos se miravam nos 15 anos de Benjamín, gestando-se do outro lado, numa dança ao som de Something que saía do próprio espelho. Um espelho chamado Laís Bodanzky.

Na lista das melhores coisas do mundo está assistir As melhores coisas do mundo na noite de um domingo de dezembro, embalada pelo silêncio de um bebê que dorme no quarto ao lado enquanto preparamos seu futuro, ele em sonho, eu em sonho e lembrança, nós em sonho, lembrança e amor.


Imagem daqui.

9 comentários:

Carol disse...

E mais uma vez Laís Bodanzky com toda sua sensibilidade arrasa! Simples assim, nada demais. Aiai... ontem vi um japonês que gostei tanto tanto... Meu vizinho Totoro. Tão bom ter filmes bons, né? Aiai... eu gosto tanto!

Naiara Krauspenhar disse...

Eu também sou tão cheia de críticas prontas quando começo a assistir um filme.
Mas é tão bom quando a gente se engana não é mesmo?
E só você pra descrever isso com tal majestade... rs
BJokas

Anne disse...

Que legal Nati,eu tb tinha um certo precosnceito com esse filme. Tinha pq vc me convenceu a assistir, foi pra lista!
Bjo

Mari disse...

Eu adorei esse filme. Adolescente não precisa ser tão idiota como a gente vê retratada por aí, né? Ufa...

Priscila, disse...

Valeu a dica!
E depois desse belo texto, resta-me apenas assistir ao filme!
Abraço!

Martha disse...

Ah.. Eu ñ tava dando muito credito para esse filme não.. agora estou curiosa!
Achei que fosse tipo "malhação", e to cansada desses tipos... Se faz refletir, vou correr para tentar assistir!
Bjs

Patrícia Boudakian disse...

Eu também não dava muito crédito pra esse filme, mas não é que você me convenceu a assistir. Daí te conto o que achei, tá?
beijo-beijo!

Lia disse...

Oi, Natália,
É raríssimo eu rejeitar um comentário. Normalmente só faço isso quando se trata de spam.
Às vezes pode acontecer de eu demorar a aprovar os comentários por falta de tempo mesmo, mas fui verificar o que ocorreu com o seu e realmente não achei nada, nenhum comentário aguardando moderação. Será que não deu algum erro na hora de enviar? Fique tranquila que você não foi censurada!
Beijos!

Dani, a Mãe da Flor disse...

Nem tinha cogitado assistir este filme, mas diante de dica tão deliciosa, mudei de idéia e estou super curiosa!!!
Obrigada!!
Bjs!!

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