quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Homem do chão

Eu andava e meu não pensar dizia que o único acontecimento era ter nos braços o peso aconchegante de meu filho. Mas numa das ruas do nosso trajeto ele forçou o pescocinho em direção a algo que já havia ficado pra trás, segurando meu ritmo distraído, e eu descobri, estirado no chão, um homem imundo. Segui andando no contrapeso da força que meu filho fazia para seguir olhando, fiel à sua pura surpresa, mas eu já não era a mesma.

Enquanto meu filho olhava outros transeuntes com a mesma curiosidade, eu resgatava da memória inexistente a imagem daquele homem que eu não tinha visto. Adivinhei a pele grossa, as unhas pretas, cada um dos trapos que o cobriam. Adivinhei o cheiro. E me surpreendi com a facilidade que havia passado ao largo daquele vulto amontoado na calçada, e com a minha própria surpresa diante da curiosidade inusitada de meu filho. Inusitada?

A limpidez de seu olhar que tudo apreende não podia incluir o significado daquele homem do chão. Talvez o mero olhar tenha parecido uma demora extra na figura tacitamente proibida, me levando então a especulações possivelmente absurdas de que meu filho tenha realmente considerado o que viu do alto do meu colo e de seus 8 meses algo deslocado, equivocado. Ou talvez ele já seja tocado por qualquer humanidade, e somente alguém assim e cuja única compreensão esteja ainda na própria visão pode verdadeiramente dar o status de absurdo ao absurdo. E ali o manter.

Não sei.

Segui andando com meu filho no colo.

13 comentários:

Mari disse...

Como explicar, né?
A Letícia, do Cotovelinhos, fez um post parecido hoje... transmimento de pensação! (Ou será que o fim de ano deixa a gente mais sensível pra essas coisas?)
Beijo!

Tatiane Garcia disse...

Q fofo!!! a curiosidade espontânea dos pimpolhos é linda!!! ainda que o que lhes chamem a atenção muitas vezes é triste...como o "homem do chão" ...
beijo beijo!!!

Kah disse...

E tem gente que passa e não vê. Juro, juro. Para alguns já faz parte da paisagem, como se fosse uma pilastra ou uma marquise... Triste essa nossa realidade, né?
Beijão!

Letícia Volponi disse...

Menina, que super coincidência! Também não conhecia seu blog, mas já te adicionei lá no meu. Que dureza isso, né? eu até agora não me conformo que não tenha conseguido me pronunciar.

Bjo

Naiara Krauspenhar disse...

Muitas vezes nos passa despercebido, temos nossos pensamentos presos a tantas coisas, que o que nos acerca nem sempre é notado.
Mas esses olhinhos puros, que tanto buscam reconhecer o mundo não perdem nada.
BJos

Minha Filha Minha Vida disse...

QUI PUREZA DE CORAÇÃO QUE SEU BEBÊ JA TEM .... certamente uma crinaça que veio a este mundo para fazer alguma diferença .... obrigada por partilhar momentos lindos beijos Sii

Marina Fiuza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina Fiuza disse...

Esse poema vive me servindo em várias situações. Dessa vez serve de comentário:

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Priscila, disse...

É a tal diferença entre ver e enxergar... E com o tempo e o embrutecimento da nossa alma vamos perdendo um deles... Enxergar é com os olhos e nosso olhar é bastante seletivo. Ver é com o coração. E só os puros veem com o coração...
Abraço.

Lia disse...

Natália, que lindo seu comentário no meu último post! Uma das delícias da maternidade é poder voltar a ser criança por meio dos nossos filhos.
Sobre o homem no chão, vi que as meninas comentaram lá em cima sobre o post da Letícia. A visão das crianças realmente é pra nos matar de vergonha dos nossos preconceitos, medo e indiferença.
Beijos

Anne disse...

como somos calejados, não?
a casca deles ainda é fininha...

Carol disse...

hunf... e aí pesa, né? pesa e dói.

leila0501 disse...

é foda!

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